Celular faz mal à pele?
- Dr. Olivério Carvalho

- há 3 dias
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O que a ciência realmente demonstra sobre radiação, luz azul e câncer de pele

Passamos cada vez mais tempo utilizando celulares, computadores e tablets. Com isso, surgiram também produtos que prometem proteger a pele da chamada “radiação digital”, da luz azul ou dos efeitos provocados pelas telas.
Mas existe realmente evidência científica de que o celular prejudique a pele?
A resposta exige uma distinção importante.
Celulares emitem radiofrequência e luz visível.
Nenhuma delas é igual à radiação ultravioleta do Sol.
E, até o momento, não existem evidências convincentes de que o uso habitual do celular provoque câncer de pele, fotoenvelhecimento ou danos cutâneos que justifiquem medidas especiais de proteção para a população em geral.
Isso não significa que essas formas de radiação não produzam nenhum efeito biológico. Significa que precisamos diferenciar aquilo que pode ser observado em um experimento daquilo que realmente provoca doença em seres humanos.
Primeiro: que tipo de radiação o celular emite?
Quando falamos em “radiação”, é fácil imaginar que todas sejam semelhantes e não são.
A radiação ultravioleta (UV) proveniente do Sol, especialmente UVB e UVA, tem papel bem estabelecido no envelhecimento da pele e no desenvolvimento dos principais cânceres cutâneos.
Os telefones celulares utilizam principalmente campos eletromagnéticos de radiofrequência, também chamados RF-EMF.
Trata-se de radiação não ionizante.
Isso significa que ela não possui energia por fóton suficiente para produzir diretamente o mesmo tipo de dano molecular que pode ser causado pela radiação ultravioleta ou por radiações ionizantes, como raios X.
O principal efeito conhecido da exposição intensa à radiofrequência é o aquecimento dos tecidos. É justamente por isso que existem limites regulamentares para a quantidade de energia que pode ser absorvida durante o uso desses aparelhos.
Portanto, comparar simplesmente “radiação do celular” com “radiação solar” pode induzir a conclusões erradas.
Mas existem estudos mostrando alterações nas células?
Sim.
Algumas pesquisas experimentais já identificaram alterações em marcadores de estresse oxidativo, expressão de determinadas proteínas e outros fenômenos celulares após exposição a campos de radiofrequência. Esse tipo de resultado merece investigação.
Mas existe uma diferença fundamental entre:
demonstrar uma alteração bioquímica em células ou animais em determinadas condições experimentais
e
demonstrar que o uso normal de um telefone celular causa uma doença em seres humanos.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 avaliou 56 estudos experimentais sobre radiofrequência e marcadores de estresse oxidativo. Os resultados foram heterogêneos e a certeza da evidência foi considerada muito baixa, principalmente devido a limitações metodológicas, risco de viés e inconsistência entre os trabalhos.
Esse é um bom exemplo de um princípio importante da medicina baseada em evidências.
Efeito observado em laboratório não significa automaticamente risco clínico.
É necessário verificar se o fenômeno se reproduz de maneira consistente, se ocorre nas doses às quais as pessoas realmente estão expostas e, principalmente, se produz alguma consequência mensurável para a saúde.
A radiofrequência dos celulares causa câncer?
Essa questão é discutida há muitos anos.
Em 2011, a Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (IARC) classificou os campos eletromagnéticos de radiofrequência como “possivelmente carcinogênicos para humanos” — Grupo 2B.
Essa classificação foi baseada principalmente em evidências limitadas envolvendo determinados tumores do sistema nervoso, particularmente glioma, e não em câncer de pele.
“Possivelmente carcinogênico” também não significa que algo tenha sido demonstrado como causa de câncer.
A classificação apenas indica que havia evidência suficiente para justificar investigação adicional, mas não para estabelecer uma relação causal.
E especificamente o celular aumenta o risco de câncer de pele?
Uma grande coorte dinamarquesa acompanhou 355.701 usuários de telefones celulares e avaliou a ocorrência de carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular e melanoma.
O estudo não encontrou aumento global significativo do risco desses cânceres entre usuários de celulares. Mesmo entre pessoas acompanhadas durante pelo menos 13 anos, o risco de carcinoma basocelular e carcinoma espinocelular permaneceu próximo ao observado na população de comparação.
Entretanto, um estudo mais recente merece ser mencionado.
Em 2024, pesquisadores analisaram dados de 431.861 participantes do UK Biobank, com acompanhamento médio de aproximadamente 10,7 anos.
O estudo encontrou uma pequena associação estatística entre uso de telefone celular e câncer de pele não melanoma:
aumento relativo de aproximadamente 8% nos homens;
aumento relativo de aproximadamente 7% nas mulheres.
Os pesquisadores também observaram associação com maior duração de uso do celular.
À primeira vista, esse resultado pode parecer preocupante.
Mas é importante entender o que esse tipo de estudo consegue, e o que ele não consegue demonstrar.
Associação não significa necessariamente causa
O estudo do UK Biobank é observacional.
Isso significa que os pesquisadores observaram o que aconteceu com pessoas que utilizavam celulares de maneiras diferentes. Eles não distribuíram aleatoriamente milhares de pessoas para usar ou não usar celulares durante dez anos.
Portanto, outros fatores podem influenciar os resultados.
Além disso, considerar uma pessoa “usuária de celular” é uma medida muito indireta da quantidade de radiofrequência realmente recebida por determinada área da pele.
Também sabemos que os cânceres de pele mais comuns estão profundamente relacionados à exposição acumulada à radiação ultravioleta solar, além de fatores como idade, tipo de pele, hábitos de exposição solar e predisposição individual.
Por isso, um aumento pequeno de risco encontrado em um estudo isolado precisa ser interpretado em conjunto com toda a literatura disponível.
O resultado é interessante e merece acompanhamento.
Mas, neste momento, não demonstra que a radiofrequência do celular cause câncer de pele.
E a famosa luz azul das telas?
Este é outro assunto que ganhou enorme espaço nos últimos anos.
A luz azul faz parte da luz visível.
Em determinadas intensidades, a luz visível pode produzir efeitos biológicos na pele. Estudos realizados com doses suficientemente elevadas demonstraram alterações de pigmentação e produção de espécies reativas de oxigênio.
O problema aparece quando esses resultados são automaticamente transferidos para a exposição produzida pela tela de um celular.
A pergunta correta não é:
“A luz azul pode afetar a pele?”
A resposta para isso é sim, MAS, dependendo da intensidade e da dose.
A pergunta realmente importante é:
“A quantidade de luz azul emitida pelo celular, nas condições normais de utilização, é suficiente para causar esses efeitos?” E aqui a evidência é muito menos preocupante.
Uma tela é muito diferente do Sol
Uma revisão sistemática especificamente dedicada aos efeitos cutâneos da luz azul emitida por dispositivos eletrônicos avaliou os estudos disponíveis e não identificou essa exposição como risco demonstrado para pigmentação, vermelhidão, agravamento do melasma ou fotoenvelhecimento.
Os próprios autores destacam que os dados ainda são limitados e que novos estudos são necessários.
Outro trabalho comparou a contribuição de diferentes fontes de luz e mostrou que o Sol permanece de longe a principal fonte de exposição biologicamente relevante, tanto para pigmentação quanto para potencial estresse oxidativo da pele. A contribuição de aparelhos eletrônicos foi muito inferior.
Mais recentemente, em 2025, pesquisadores mediram diretamente a intensidade e a dose de luz visível e luz azul emitidas por smartphones, tablets e computadores em diferentes distâncias e níveis de brilho.
A conclusão foi clara: as doses produzidas pelos aparelhos nas condições habituais de uso são pequenas e improváveis de causar dano à pele.
Então preciso usar protetor solar para ficar diante do computador?
Para a população em geral, não existe evidência convincente que justifique o uso de filtro solar simplesmente porque a pessoa permanece diante de um celular, tablet ou computador.
Isso é muito diferente de recomendar proteção solar para alguém exposto à luz do Sol.
E quem tem melasma?
Aqui também é importante não misturar conceitos.
A luz visível proveniente do Sol pode contribuir para a pigmentação, especialmente em pessoas com fototipos mais altos e em determinadas condições como o melasma.
Por isso, algumas pessoas com melasma podem se beneficiar de estratégias específicas contra luz visível, como filtros solares pigmentados contendo óxidos de ferro.
Isso, entretanto, não significa que a tela do telefone seja responsável pelo problema.
A intensidade da exposição solar é muito superior àquela produzida pelos dispositivos eletrônicos utilizados no cotidiano.
O celular encostado no rosto pode aquecer a pele?
Pode ocorrer algum aumento local de temperatura durante chamadas prolongadas.
Parte desse aquecimento pode decorrer do próprio funcionamento do aparelho e do contato prolongado com a pele.
Mas novamente precisamos distinguir um fenômeno físico mensurável de uma doença.
Até o momento, não existe evidência consistente de que esse pequeno aquecimento durante o uso normal produza envelhecimento cutâneo ou câncer de pele.
O problema de transformar mecanismos experimentais em medo
A medicina está cheia de substâncias e fenômenos capazes de produzir alterações celulares quando utilizados em condições experimentais específicas.
Isso não significa necessariamente que sejam perigosos nas condições normais de exposição.
Para avaliar um risco precisamos considerar pelo menos três perguntas:
1. Existe um mecanismo biologicamente plausível?
2. A dose encontrada na vida real é suficiente para produzir esse efeito?
3. Estudos realizados em seres humanos demonstram aumento consistente de doença?
No caso da pele e dos celulares, ainda existem questões científicas que merecem acompanhamento.
Mas a evidência atual não permite colocar a radiofrequência ou a luz das telas no mesmo patamar da radiação ultravioleta solar.
O que realmente sabemos hoje?
Podemos resumir da seguinte maneira:
Radiofrequência do celular
É radiação não ionizante e não produz o mesmo mecanismo de dano direto ao DNA associado à radiação ultravioleta.
Alterações celulares experimentais
Alguns estudos encontram alterações; outros não. Revisões sistemáticas mostram grande heterogeneidade e baixa ou muito baixa certeza para vários desses efeitos.
Câncer de pele
Até hoje não existe evidência convincente de causalidade. Uma grande coorte dinamarquesa não encontrou aumento relevante. Um estudo recente do UK Biobank encontrou uma pequena associação com câncer de pele não melanoma, mas esse resultado isoladamente não demonstra causa.
Luz azul das telas
A quantidade emitida por celulares e computadores nas condições habituais de uso é muito pequena quando comparada à exposição ambiental, principalmente à luz solar.
Protetor solar diante do computador
Não existe atualmente base científica consistente para recomendar filtro solar à população simplesmente porque utiliza telas.
Não precisamos criar um novo inimigo para a pele !
Celulares mudaram profundamente nossos hábitos e é absolutamente legítimo investigar seus possíveis efeitos sobre a saúde.
A ciência deve continuar acompanhando pessoas expostas durante décadas, estudando novas tecnologias e verificando possíveis efeitos ainda desconhecidos.
Mas prudência científica funciona nos dois sentidos.
Não devemos afirmar que algo é absolutamente inofensivo quando ainda existem perguntas em aberto.

Também não devemos transformar uma alteração encontrada em células de laboratório ou uma pequena associação epidemiológica em prova de que celulares estejam causando câncer ou envelhecimento da pele.
Quando falamos de prevenção dermatológica, já conhecemos um fator cuja importância é incomparavelmente maior e cuja relação com câncer de pele está solidamente demonstrada que é a exposição excessiva à radiação ultravioleta do Sol.
É nela que devem estar concentradas as principais medidas de prevenção.
Referências:
1) Meyer F, et al. The effects of radiofrequency electromagnetic field exposure on biomarkers of oxidative stress in vivo and in vitro: a systematic review of experimental studies. Environment International. 2024;194:108940.
2) Poulsen AH, et al. Mobile phone use and the risk of skin cancer: a nationwide cohort study in Denmark. American Journal of Epidemiology. 2013;178(2):190-197.
3) Mobile Phone Use and Risks of Overall and 25 Site-Specific Cancers: A Prospective Study from the UK Biobank Study. Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention. 2024;33:88-95.
4) Ceresnie MS, Patel J, Lim HW, Kohli I. The cutaneous effects of blue light from electronic devices: a systematic review with health hazard identification. 2023;22(2):457-464.
5) Navarrete de Gálvez E, et al. The potential role of UV and blue light from the sun, artificial lighting, and electronic devices in melanogenesis and oxidative stress. Journal of Photochemistry and Photobiology B. 2022;228:112405.
6) Dosimetry Assessment of Potential Hazard from Visible Light, Especially Blue Light, Emitted by Screen of Devices in Daily Use. 2025.
7) International Agency for Research on Cancer. IARC classifies radiofrequency electromagnetic fields as possibly carcinogenic to humans. 2011.
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.
Dr. Olivério Carvalho é médico dermatologista em São Paulo, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e especialista em Dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação em câncer de pele, cirurgia dermatológica e criocirurgia. Sua prática é voltada ao diagnóstico preciso e à escolha individualizada do tratamento, incluindo biópsias de pele, atendimento de pacientes idosos, avaliação de casos complexos e segunda opinião médica. CRM-SP 59.971 — RQE 108.382


