Roacutan (Isotretinoína) ainda precisa de exames todo mês?

Atualizado: 8 de set.
JAMA Dermatology questiona rotina de décadas

O JAMA Dermatology (Journal of the American Medical Association) questiona uma prática mantida por décadas e reforça uma tendência que já adoto na minha clínica há muitos anos: acompanhar cada paciente tomando isotretinoína de acordo com seu risco, em vez de solicitar exames repetitivos desnecessários de forma automática.
A isotretinoína, conhecida pelo nome comercial Roacutan, é um dos medicamentos mais eficazes para o tratamento da acne. Apesar disso, poucas medicações dermatológicas têm uma reputação tão cercada de receios. Isso ocorre mesmo após ter sido lançada e usada com sucesso no mundo todo há 44 anos (em 1982) e no Brasil há 36 anos (em 1990).
Durante décadas, tornou-se comum solicitar exames de sangue antes do tratamento e repeti-los praticamente todos os meses. Isso é feito principalmente para acompanhar colesterol, triglicérides e enzimas do fígado, como TGO, TGP e GGT.
Mas será que todo paciente realmente precisa dessa quantidade de exames? Um artigo publicado na edição de agosto de 2026 do JAMA Dermatology levanta exatamente essa questão e vai bastante longe na resposta.
O título do artigo já revela a posição dos autores: “It Is Time to End Routine Laboratory Monitoring for Isotretinoin” — está na hora de acabar com o monitoramento laboratorial rotineiro da isotretinoína.
O que mudou?
Na realidade, essa discussão não começou agora. Nos últimos anos, vários trabalhos vêm demonstrando que alterações laboratoriais graves durante o tratamento com isotretinoína são pouco frequentes, especialmente em pessoas jovens, saudáveis e sem fatores de risco conhecidos.
Um consenso internacional publicado no JAMA Dermatology em 2022 já havia chegado a uma conclusão muito diferente da antiga rotina de exames mensais. Os especialistas concordaram em avaliar principalmente ALT (TGP) — uma enzima hepática e triglicérides antes do início do tratamento e novamente quando a dose máxima fosse atingida, em vez de repetir esses exames mensalmente. O mesmo consenso considerou desnecessário realizar hemograma de rotina em pacientes saudáveis.
Agora, o novo artigo questiona se, em alguns pacientes de baixo risco, não estamos solicitando exames ainda mais frequentemente do que seria realmente necessário.
O dado que chama mais atenção
Os autores citam uma revisão que identificou 407 trabalhos e analisou detalhadamente 125 publicações relacionadas a possíveis eventos adversos que poderiam ser detectados por monitoramento laboratorial. A conclusão foi bastante interessante.
Os eventos graves avaliados eram extremamente raros — menos de um para cada 10.000 indivíduos — e geralmente apresentavam pelo menos uma destas características:
Eram imprevisíveis e não seriam necessariamente evitados por exames periódicos.
Apareciam acompanhados de sintomas.
Ocorreram em pessoas que já apresentavam algum fator de risco ou condição predisponente identificável.
Os autores dessa revisão concluíram que não encontraram evidência de benefício do monitoramento laboratorial sistemático em jovens saudáveis utilizando isotretinoína. Isso não significa que nenhuma alteração laboratorial possa ocorrer. Significa algo diferente e muito mais importante: alteração em exame não é sinônimo de complicação grave. Repetir exames indiscriminadamente em milhares de pacientes pode ter um rendimento clínico muito pequeno.
A isotretinoína pode alterar colesterol, triglicérides e enzimas do fígado?
Pode. Esse ponto não deve ser escondido nem minimizado. Estudos mostram que alguns pacientes apresentam alterações nos lipídios ou nas enzimas hepáticas durante o tratamento. Entretanto, alterações laboratoriais clinicamente importantes são muito menos frequentes do que pequenas variações nos valores dos exames.
Uma meta-análise publicada anteriormente no JAMA Dermatology encontrou mudanças estatisticamente detectáveis em alguns parâmetros laboratoriais. No entanto, concluiu que, na maioria dos pacientes tratados com doses habituais, essas mudanças não atingiam níveis considerados de alto risco. Os autores já afirmavam que os resultados não justificavam exames mensais para todos os pacientes. Essa distinção é fundamental.
Um exame pode mudar sem que essa mudança represente uma doença, uma complicação ou sequer exija interrupção do tratamento.
O que as diretrizes mais recentes dizem?
As próprias diretrizes da American Academy of Dermatology, publicadas em 2024, já caminham nessa direção. Elas recomendam considerar o acompanhamento de função hepática e lipídios durante o uso de isotretinoína. Contudo, afirmam que hemograma não é necessário rotineiramente em pacientes saudáveis.
Além disso, citam o consenso segundo o qual ALT e triglicérides podem ser avaliados antes do tratamento e quando se atinge a dose máxima, em vez de mensalmente. Portanto, o artigo de 2026 não surgiu isoladamente. Ele representa mais um passo em uma mudança que vem ocorrendo progressivamente na Dermatologia: sair do monitoramento padronizado de todos os pacientes para um acompanhamento baseado no risco individual.
É uma conduta que já adoto há muitos anos
Na minha prática dermatológica, há muitos anos não considero razoável pedir a mesma bateria repetitiva de exames para todos os pacientes simplesmente porque estão tomando isotretinoína. O acompanhamento deve ser médico e individualizado.
Uma pessoa jovem, saudável, com exames iniciais normais e sem fatores de risco não é igual a um paciente com obesidade, alteração prévia de triglicérides, doença hepática, consumo excessivo de álcool ou uso de outros medicamentos que possam interferir no fígado ou no metabolismo dos lipídios.
Tratar pacientes diferentes como se apresentassem exatamente o mesmo risco não torna o tratamento necessariamente mais seguro. Em Medicina, pedir mais exames nem sempre significa cuidar melhor. O importante é pedir o exame certo, no paciente certo e no momento em que o resultado tenha possibilidade real de modificar uma conduta.
É interessante ver que a literatura médica vem progressivamente dando sustentação a uma estratégia que já utilizo há muitos anos na prática clínica.
Então a isotretinoína é um medicamento seguro?
Quando corretamente indicada, prescrita e acompanhada, a isotretinoína possui um histórico de utilização de décadas e um perfil de segurança bastante conhecido. Isso não significa que seja uma medicação sem efeitos colaterais. Ressecamento dos lábios e da pele, por exemplo, é extremamente comum. Alterações de triglicérides e enzimas hepáticas podem ocorrer e justificam maior atenção em determinados pacientes.
O que a literatura atual questiona é outra coisa: se devemos transformar possibilidades relativamente incomuns de complicações laboratoriais importantes em uma rotina de exames mensais para absolutamente todos os pacientes. A resposta parece ser cada vez mais: não necessariamente.
A American Academy of Dermatology continua recomendando a isotretinoína fortemente para acne grave, acne associada a cicatrizes ou impacto psicossocial e casos que não responderam adequadamente aos tratamentos convencionais.
Existe uma exceção que jamais pode ser esquecida: gravidez
A redução de exames laboratoriais não modifica o risco da isotretinoína durante a gravidez. A isotretinoína é teratogênica e pode provocar malformações fetais graves. Portanto, em pessoas com possibilidade de engravidar, as medidas destinadas a evitar exposição durante a gestação continuam sendo absolutamente fundamentais. As diretrizes americanas são categóricas nesse ponto: prevenção da gravidez durante o tratamento é obrigatória.
Uma coisa não deve ser confundida com a outra. Questionar colesterol, triglicérides, hemogramas ou enzimas hepáticas solicitados desnecessariamente todos os meses não significa flexibilizar os cuidados relacionados à gravidez.
Quem pode precisar de acompanhamento laboratorial mais próximo?
A individualização é justamente o ponto central. Pacientes com fatores como dislipidemia prévia, obesidade, síndrome metabólica, doença do fígado, consumo relevante de álcool, alterações nos exames iniciais, determinados medicamentos concomitantes ou outras condições clínicas podem justificar controles mais frequentes.
Da mesma forma, o surgimento de sintomas ou de uma alteração laboratorial significativa pode mudar completamente a estratégia de acompanhamento. Por isso, a conclusão não deve ser: “Quem toma isotretinoína não precisa fazer exames.”
A conclusão correta é:
Nem todo paciente que usa isotretinoína precisa realizar os mesmos exames, na mesma frequência e durante todo o tratamento.
Menos exames pode significar uma Medicina melhor
Existe uma ideia intuitiva de que quanto maior o número de exames solicitados, maior a segurança. Mas na prática, nem sempre. Exames desnecessários têm custo, provocam desconforto, ocupam tempo e também podem encontrar pequenas alterações sem significado clínico. Isso pode desencadear novos exames, ansiedade e até interrupções desnecessárias de tratamentos eficazes.
Medicina baseada em evidências também significa saber quando investigar e quando não investigar. O novo Viewpoint do JAMA Dermatology é provocativo justamente porque questiona uma prática incorporada à Dermatologia durante décadas.
Ele não cria uma nova diretriz universal e não determina que todos os exames devam ser abandonados. Mas reforça, com base no conjunto de evidências acumuladas, uma ideia que considero muito mais racional: a segurança da isotretinoína deve ser obtida por boa indicação, avaliação clínica, orientação adequada e acompanhamento individualizado — e não simplesmente pela repetição automática de exames.
Em resumo
A isotretinoína continua sendo uma das medicações mais eficazes para acne e, quando bem indicada e acompanhada, apresenta um perfil de segurança conhecido após décadas de utilização. A evidência atual sugere que pacientes saudáveis e de baixo risco provavelmente não necessitam da extensa rotina mensal de exames que foi adotada durante muitos anos. Isso não significa abandonar acompanhamento. Significa substituir uma rotina automática por Medicina individualizada.
Referência:
Pierson JC, Pong TM, Derbyshire ML. It Is Time to End Routine Laboratory Monitoring for Isotretinoin. JAMADermatology. 2026;162(8):769-770. doi:10.1001/jamadermatol.2026.2144.
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.
Dr. Olivério Carvalho é médico dermatologista em São Paulo, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e especialista em Dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação em câncer de pele, cirurgia dermatológica e criocirurgia. CRM-SP 59.971 — RQE 108.382

