História da criocirurgia na Medicina

Atualizado: 6 de set.
Do frio na Antiguidade ao tratamento moderno do câncer de pele

Usar o frio para tratar doenças parece uma ideia moderna. Na realidade, é uma das estratégias terapêuticas mais antigas conhecidas pela Medicina.
O que mudou ao longo dos séculos não foi a percepção de que o frio produz efeitos nos tecidos, mas a capacidade de controlar a temperatura, a profundidade e a extensão desse efeito. Foi essa evolução que transformou uma observação milenar naquilo que hoje conhecemos como criocirurgia.
O frio já era utilizado na Medicina há mais de quatro mil anos
Existem registros históricos de que os antigos egípcios utilizavam o frio por volta de 2500 a.C. para diminuir dor e inflamação após traumatismos.
Séculos depois, Hipócrates também descreveu propriedades analgésicas e anti-inflamatórias do frio.
Evidentemente, isso ainda estava muito distante da criocirurgia moderna. O frio era utilizado para aliviar sintomas, e não para promover a destruição controlada de determinado tecido.
No século XVIII, o cirurgião e anatomista escocês John Hunter realizou alguns dos primeiros experimentos sistemáticos procurando compreender os efeitos das baixas temperaturas sobre organismos e tecidos animais.
A ideia de utilizar o frio deliberadamente para destruir tumores surgiria mais tarde.
James Arnott e uma das primeiras tentativas de congelar tumores
Entre 1845 e 1851, o médico inglês James Arnott descreveu a utilização de misturas de gelo e sal, capazes de produzir temperaturas em torno de -20 °C, no tratamento de tumores acessíveis. Os recursos eram rudimentares e as temperaturas muito superiores às que conseguimos atingir atualmente.
Mesmo assim, havia ali uma mudança conceitual importante:
o frio deixava de ser apenas uma forma de aliviar dor ou inflamação e começava a ser utilizado deliberadamente para destruir tecido doente.
Arnott tratou, inclusive, tumores avançados, observando alívio da dor e redução de algumas lesões.
Faltava, entretanto, uma tecnologia capaz de produzir temperaturas muito mais baixas de maneira prática e controlável.
A liquefação dos gases mudou tudo
No final do século XIX, os avanços da Física permitiram liquefazer gases como oxigênio e nitrogênio. Isso abriu uma nova possibilidade para a Medicina.
Em 1899, o médico americano Campbell White relatou o emprego de ar líquido no tratamento de diferentes lesões da pele.
Nas primeiras décadas do século XX, outros agentes criogênicos foram utilizados, incluindo dióxido de carbono sólido.
Mas o grande salto aconteceria após a Segunda Guerra Mundial, quando o nitrogênio líquido passou a estar comercialmente disponível em maior escala.
O nitrogênio representa aproximadamente 78% da atmosfera. Quando liquefeito, permanece a aproximadamente -196 °C, tornando-se um agente extremamente eficiente para retirar rapidamente calor dos tecidos.
1950: o nitrogênio líquido entra na Dermatologia
Em 1950, o dermatologista americano Herman V. Allington publicou sua experiência utilizando hastes de algodão mergulhadas em nitrogênio líquido para tratar doenças da pele. Ele descreveu seu emprego em verrugas, queratoses e outras alterações cutâneas.
A técnica ainda apresentava uma limitação importante.Uma haste de algodão consegue produzir um congelamento relativamente superficial. Para que a criocirurgia pudesse tratar tumores mais profundos, seria necessário controlar melhor a transferência do frio para os tecidos. E foi exatamente isso que começou a acontecer na década seguinte.
Irving Cooper e a criocirurgia moderna


Em 1961, o neurocirurgião americano Irving Cooper, trabalhando com o engenheiro Arnold Lee, desenvolveu uma sonda criocirúrgica fechada capaz de produzir congelamento controlado em profundidade.
Cooper inicialmente utilizou a técnica em Neurocirurgia, especialmente para produzir lesões controladas no cérebro no tratamento de distúrbios do movimento, além de estudar sua aplicação em tumores.
A possibilidade de produzir congelamentos profundos e controlados provocou grande interesse em diversas especialidades médicas.
Para a Dermatologia, outro avanço decisivo foi tornar o equipamento menor e adequado ao consultório. Torre desenvolveu um spray de nitrogênio líquido em 1965 e Setrag Zacarian apresentou, em 1967, um aparelho manual que ajudou a popularizar a criocirurgia dermatológica. A partir daí, a técnica se expandiu.
A criocirurgia além da Dermatologia
O princípio de destruir ou modificar tecidos por congelamento controlado não ficou restrito à pele. Quando falamos da história da criocirurgia ao longo das décadas, diferentes especialidades adaptaram o frio a equipamentos, formas de aplicação e métodos de monitorização próprios. Por isso, a literatura utiliza termos como criocirurgia, crioterapia, crioablação e criopexia para procedimentos que compartilham a mesma base física, embora não sejam tecnicamente idênticos.
Na Ginecologia, a criocirurgia tem longa história no tratamento ablativo de lesões precursoras do colo uterino.
Na Urologia, a crioablação é empregada em situações selecionadas de câncer de próstata e de pequenas massas renais.
Na Mastologia e na Radiologia Intervencionista, tem sido utilizada ou estudada tanto em fibroadenomas quanto em casos selecionados de câncer de mama inicial.
Na Estomatologia e na Cirurgia Oral, há experiência com diversas lesões da mucosa oral. Na Otorrinolaringologia, existem aplicações históricas em doenças da cabeça e pescoço e, mais recentemente, a crioablação do nervo nasal posterior passou a ser utilizada em pacientes selecionados com rinite crônica.
A Oftalmologia também possui longa tradição com a crioterapia e a criopexia em doenças da retina, embora o laser tenha substituído o frio em algumas indicações.
Na Cardiologia, a crioablação por cateter, inclusive com balão, tornou-se uma das tecnologias utilizadas no tratamento da fibrilação atrial.
E, na Oncologia Intervencionista, criossondas guiadas por métodos de imagem são empregadas em tumores selecionados de rim, pulmão, fígado, osso e partes moles.
O agente criogênico e o equipamento podem variar bastante entre essas áreas; o ponto em comum é a utilização planejada de temperaturas muito baixas para produzir um efeito biológico ou destruição tecidual controlada.
Por que a Dermatologia a especialidade onde mais se utiliza a criocirurgia?
A pele oferece uma condição peculiar. O médico consegue ver diretamente o tecido que está tratando, delimitar a área, acompanhar a formação do campo congelado e, dependendo da técnica, controlar parâmetros como tempo, extensão e temperatura.
Além disso, o nitrogênio líquido permite atingir temperaturas suficientemente baixas para provocar destruição celular.
Quando a água presente nos tecidos congela, ocorrem alterações físicas e bioquímicas importantes. Há formação de cristais de gelo, mudanças osmóticas, lesão das membranas celulares e, posteriormente, alterações na microcirculação local.
O efeito final depende de vários fatores.
Importam a temperatura atingida, a velocidade de congelamento, a profundidade, o tempo de descongelamento, o número de ciclos e as características do tecido tratado.
É justamente por isso que existe uma diferença importante entre simplesmente aplicar nitrogênio líquido sobre uma lesão e realizar uma criocirurgia planejada, especialmente com finalidade oncológica.
Curiosamente, apesar dessa longa história, uma revisão publicada em agosto de 2026 no Clinical and Experimental Dermatology descreve a crioterapia cutânea como uma técnica bem estabelecida, mas ainda pouco reconhecida e utilizada de forma inconsistente, especialmente entre médicos em formação em Dermatologia. Isso ajuda a explicar por que um método com décadas de experiência acumulada pode parecer pouco conhecido para parte dos profissionais e pacientes.
Crioterapia ou criocirurgia?
Os dois termos aparecem frequentemente na literatura e algumas vezes são utilizados de maneira intercambiável. Entretanto, considero útil fazer uma distinção prática.
Quando aplicamos nitrogênio líquido superficialmente para tratar determinadas verrugas, queratoses ou outras lesões benignas, o termo crioterapia é perfeitamente compreensível.
Quando buscamos a destruição cirúrgica controlada de um determinado volume de tecido, particularmente no tratamento de um tumor, considero mais apropriado falar em criocirurgia.

No câncer de pele, portanto, não se trata simplesmente de “congelar uma lesão”.
É necessário conhecer o tumor, sua profundidade provável, seus limites, a margem que necessita ser tratada e o comportamento dos diferentes tecidos diante do congelamento e do descongelamento.
Criocirurgia e câncer de pele
A criocirurgia passou a ser estudada extensivamente no tratamento de determinados cânceres de pele não melanoma, particularmente carcinomas basocelulares e carcinomas espinocelulares.
Uma das séries mais conhecidas foi publicada pelo dermatologista americano Emanuel Kuflik em 2004. O autor analisou 4.406 carcinomas basocelulares e espinocelulares tratados por criocirurgia ao longo de 30 anos, em 2.932 pacientes.
A taxa global de cura relatada foi de 98,6%.
Na parcela mais recente dessa casuística, 522 tumores com acompanhamento de cinco anos apresentaram taxa de cura de 99%.
Os resultados publicados também mostram como o protocolo pode modificar o desfecho. Em um estudo prospectivo randomizado de Mallon e Dawber, carcinomas basocelulares faciais tratados com dois ciclos de congelamento-descongelamento apresentaram taxa de cura de 95,3%, enquanto aqueles tratados com um único ciclo tiveram taxa de 79,4%.
No tronco, carcinomas basocelulares superficiais tratados com um único ciclo alcançaram 95,5%. A comparação reforça um ponto importante:
não existe uma única forma de aplicar a “criocirurgia”; parâmetros técnicos diferentes podem produzir resultados diferentes.
Kuflik também não representa uma experiência isolada. Zacarian publicou uma série de 4.228 carcinomas cutâneos tratados ao longo de 18 anos. Holt acompanhou 395 cânceres de pele não melanoma selecionados e relatou taxa global de cura de 97%. Lindemalm-Lundstam e Dalenbäck acompanharam prospectivamente 962 tumores da face e do couro cabeludo, com 14 recidivas e uma taxa de cura estimada superior a 97% após 14 anos.
Há ainda séries particularmente interessantes em áreas anatômicas consideradas desafiadoras. Lindgren e Larkö relataram 781 carcinomas basocelulares das pálpebras e do canto medial tratados ao longo de 30 anos, com três recidivas. Samain e colaboradores avaliaram 144 carcinomas basocelulares centrofaciais, encontrando sobrevida livre de recorrência estimada em cinco anos de 94%; quando excluídos 13 tumores tratados com intenção paliativa apesar de características consideradas contraindicações teóricas, a estimativa foi de 96,5%. Esses estudos utilizaram seleções de pacientes, protocolos e formas de acompanhamento diferentes e, portanto, não devem ser comparados como se fossem equivalentes; em conjunto, porém, documentam uma experiência dermatológica extensa com a técnica.
São resultados particularmente interessantes.
Isso não significa, entretanto, que todo câncer de pele deva ser tratado com criocirurgia.
O próprio princípio fundamental permanece válido:
o sucesso depende da seleção adequada do tumor e da execução correta da técnica.
Dr Gilberto Castro Ron e minha formação em criocirurgia

Minha própria relação com a criocirurgia começou há mais de três décadas.
Tive a oportunidade de realizar treinamento específico com o dermatologista venezuelano Dr. Gilberto Castro Ron, um dos grandes nomes da criocirurgia dermatológica latino-americana.
Castro Ron dedicou grande parte de sua carreira ao desenvolvimento e ao ensino da técnica e teve papel importante em sua difusão, especialmente na América Latina.
Ao longo dos anos, pude aplicar a técnica em ambientes muito diferentes: durante minha formação no Hospital das Clínicas da USP; posteriormente, no Departamento de Dermatologia da Escola Paulista de Medicina, atual UNIFESP, onde coordenei o ambulatório de Criocirurgia; e durante os anos em que chefiei a Dermatologia do Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho.
Paralelamente, a criocirurgia sempre fez parte de minha prática dermatológica.
Esse contato prolongado com a técnica também me ensinou algo importante:
criocirurgia e cirurgia convencional não precisam ser tratadas como técnicas conflitantes. Ao contrário, costumo combinar ambas no tratamento do câncer de pele.
Um dermatologista que conhece diferentes métodos pode escolher aquele que oferece a melhor relação entre possibilidade de cura, segurança, preservação funcional, cicatriz e condições clínicas para cada paciente.
Uma técnica antiga que continua atual
É curioso perceber que uma história iniciada com a aplicação de frio há milhares de anos tenha resultado em equipamentos capazes de produzir temperaturas próximas de -196 °C e destruir seletivamente tecidos doentes.
Mais curioso ainda é que uma técnica relativamente simples do ponto de vista tecnológico possa exigir tanto conhecimento para ser utilizada em profundidade.
A criocirurgia não depende apenas de possuir um recipiente de nitrogênio líquido.
Depende de compreender o que deve ser congelado, até onde congelar, quanto tempo permitir o descongelamento, quando repetir o ciclo e, principalmente, qual lesão deve ou não deve ser tratada dessa maneira.
Talvez seja essa uma das características mais interessantes da técnica.
A tecnologia é relativamente simples.
A parte difícil continua sendo o conhecimento médico para aplicá-la.
Criocirurgia no tratamento do câncer de pele
Este artigo aborda principalmente a história e os fundamentos da criocirurgia.
Para entender quando a criocirurgia pode ser utilizada no tratamento do carcinoma basocelular e do carcinoma espinocelular, quais são suas vantagens, limitações e como ela se compara a outras opções de tratamento, consulte a página específica do site sobre tratamento do câncer de pele.
Referências
História, fundamentos e revisões gerais
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Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.
Dr. Olivério Carvalho é médico dermatologista em São Paulo, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e especialista em Dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação em câncer de pele, cirurgia dermatológica e criocirurgia.
CRM-SP 59.971 — RQE 108.382


