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Clínica Dr. Olivério  Carvalho 

Dermatologista -  CRM 59971 - RQE 108382

Melanoma: guia completo para pacientes e familiares

Melanoma: sinais de alerta, diagnóstico, biópsia e tratamento


Por que este tipo de câncer de pele merece tanta atenção?



Capa de guia sobre melanoma com ilustração de uma lesão de pele observada por lupa, destaque para os critérios ABCD e texto informativo sobre diagnóstico precoce, biópsia correta e tratamento bem planejado.
Melanoma: por que este câncer de pele merece tanta atenção?

O melanoma é um tipo de câncer de pele que se origina nos melanócitos, células responsáveis pela produção da melanina, o pigmento que dá cor à pele, aos cabelos e aos olhos. Ele é bem menos frequente do que o carcinoma basocelular e o carcinoma espinocelular, mas costuma receber atenção especial porque tem maior potencial de se espalhar para linfonodos e outros órgãos quando não é diagnosticado e tratado precocemente.

 

No Brasil, o INCA estima 9.360 novos casos de melanoma por ano no triênio 2026–2028, sendo 4.930 em homens e 4.430 em mulheres.

 

A boa notícia é que muitos melanomas podem ser curados quando diagnosticados cedo, e as opções de tratamento para casos avançados continuam evoluindo.

A má notícia é que, quando o diagnóstico é tardio, a doença pode se tornar muito mais complexa. Dados populacionais do SEER, nos Estados Unidos, mostram sobrevida relativa em 5 anos de 100% para melanoma localizado, 76% para doença regional e 34% para doença metastática à distância. Esses números não predizem o destino de uma pessoa específica, mas ilustram com clareza a importância do diagnóstico precoce.


Gráfico sobre melanoma mostrando sobrevida relativa em 5 anos por estágio da doença: 100% no melanoma localizado, 76% no regional e 34% no distante.
No melanoma, o estágio da doença muda fortemente o prognóstico: a sobrevida é muito maior quando o diagnóstico ocorre antes da disseminação.

 

Diante de uma lesão realmente suspeita de melanoma, a conduta não deve ser apenas observar passivamente.

Lesão suspeita precisa de exame dermatológico cuidadoso e de biópsia adequada.

Melanoma é sempre uma pinta escura?

Não. Essa é uma das maiores armadilhas.

 

O melanoma pode aparecer como uma pinta escura nova, mas também pode surgir como uma mancha irregular, uma lesão que muda de cor, uma pinta antiga que começa a crescer, uma faixa escura na unha, uma ferida que não cicatriza ou até uma lesão pouco pigmentada, rosada ou avermelhada. Essa forma, mais rara, é chamada melanoma amelanótico.

 

Alguns melanomas são muito pigmentados. Outros têm pouca cor. Alguns crescem lentamente. Outros crescem rápido. Por isso, a pergunta mais importante nem sempre é “essa pinta é preta?”, mas sim:

 

Essa lesão é nova, diferente das outras ou está mudando?

 

Melanoma, carcinoma basocelular e carcinoma espinocelular: qual a diferença?

O carcinoma basocelular, o carcinoma espinocelular e o melanoma são tipos de câncer de pele, mas não se comportam da mesma maneira.

O carcinoma basocelular costuma ter crescimento local e muito raramente dá metástases, embora possa destruir tecidos localmente se negligenciado.

O carcinoma espinocelular pode ter comportamento mais agressivo que o carcinoma basocelular, especialmente em tumores grandes, mal diferenciados, recidivados, em imunossuprimidos ou localizados em áreas de risco.

O melanoma, mesmo sendo bem menos frequente que os anteriores, é particularmente importante porque pode disseminar mais cedo do que os tumores de pele não melanoma.

Por isso, não deve haver tolerância com atraso diagnóstico.

 

Na prática, isso significa que uma lesão suspeita de melanoma não deve ser tratada como uma “pinta para observar indefinidamente”. A observação pode ser útil em situações selecionadas, mas não deve substituir a biópsia quando há suspeita clínica consistente.

 

Quais são os principais sinais de alerta?

A regra mais conhecida é o ABCDE do melanoma.

 

A — Assimetria

 

Uma parte da lesão não se parece com a outra.

 

B — Bordas irregulares

 

As bordas podem ser recortadas, mal definidas, serrilhadas ou borradas.

 

C — Cores variadas

 

A lesão pode ter diferentes tons de marrom, preto, vermelho, branco, cinza ou azulado.

 

D — Diâmetro

 

Lesões maiores que 6 mm merecem atenção, mas melanomas também podem ser menores.

 

E — Evolução

 

Mudança é um dos sinais mais importantes: crescimento, escurecimento, sangramento, coceira, dor, alteração de relevo ou modificação percebida pelo paciente. Por isso, toda mudança persistente em uma lesão pigmentada deve ser valorizada, mesmo quando ocorre lentamente.

 

A American Cancer Society descreve o ABCDE como uma ferramenta prática para reconhecer sinais suspeitos, incluindo assimetria, bordas irregulares, variação de cor, diâmetro maior que 6 mm e evolução.

 

O sinal do “patinho feio”

 

Além do ABCDE, existe um conceito muito útil: o patinho feio.

A maioria das pintas de uma pessoa tende a seguir um padrão.

Quando uma lesão parece diferente de todas as outras, ela chama a atenção.

Essa lesão “fora do padrão” pode ser mais importante do que uma pinta apenas grande ou apenas escura.

 

A Skin Cancer Foundation destaca o “ugly duckling sign” justamente como a lesão que se destaca por ser diferente das demais no mesmo paciente.


Infográfico sobre melanoma mostrando a regra ABCDE, com comparação entre lesões provavelmente benignas e possíveis melanomas, além do sinal do patinho feio e medidas de prevenção solar.
A regra ABCDE e o sinal do patinho feio ajudam a reconhecer pintas ou manchas que merecem avaliação dermatológica.

Onde o melanoma pode aparecer?

 

O melanoma pode surgir em áreas expostas ao sol, como rosto, orelhas, pescoço, braços, dorso das mãos, tronco e pernas. Mas também pode surgir em áreas menos óbvias: couro cabeludo, palmas, plantas, unhas, região genital e mucosas.

 

Isso é importante porque muitos pacientes só examinam as áreas visíveis. O couro cabeludo pode esconder lesões por muito tempo. As unhas podem ser confundidas com trauma. As plantas dos pés podem ser negligenciadas, especialmente em pessoas que acreditam que melanoma só aparece em áreas muito expostas ao sol.

 

O melanoma pode aparecer em áreas expostas e também em locais escondidos, como couro cabeludo, unhas, palmas e plantas.


Infográfico mostrando onde o melanoma pode aparecer, incluindo áreas expostas ao sol, couro cabeludo, unhas, palmas, plantas dos pés e pele negra ou morena.
O melanoma pode surgir em áreas expostas ao sol, mas também em locais menos lembrados, como couro cabeludo, unhas, palmas e plantas dos pés.

Pessoas de pele negra ou morena também podem ter melanoma.

 

Embora a incidência seja menor, o diagnóstico pode ocorrer mais tardiamente, especialmente em locais como palmas, plantas e unhas. O próprio INCA lembra que o melanoma pode aparecer em qualquer parte do corpo e que a atenção aos sinais suspeitos é fundamental.

O melanoma pode aparecer em áreas expostas e também em locais escondidos, como couro cabeludo, unhas, palmas e plantas.

 

Tipos principais de melanoma

 

Melanoma extensivo superficial

 

É um dos tipos mais comuns. Costuma crescer inicialmente de forma mais horizontal, como uma mancha ou placa irregular, antes de invadir em profundidade. Pode ser identificado em fase inicial quando há atenção às mudanças de cor, forma e tamanho.

 

Melanoma nodular

 

É um tipo particularmente importante porque pode crescer de forma mais rápida e vertical, formando nódulo elevado, escuro, azulado, avermelhado ou até pouco pigmentado. Nem sempre segue perfeitamente o ABCDE clássico. Por isso, uma lesão nova, elevada, firme, que cresce rapidamente ou sangra deve ser avaliada com prioridade.

 

Lentigo maligno e melanoma lentigo maligno

 

Costuma aparecer em áreas cronicamente expostas ao sol, especialmente na face de pessoas mais idosas. Pode se apresentar como mancha acastanhada irregular, de crescimento lento. O desafio é diferenciar de manchas solares benignas, melasma, queratoses pigmentadas e outras alterações comuns do envelhecimento cutâneo.

 

Melanoma acral lentiginoso

 

Aparece em palmas, plantas e região ungueal. É um subtipo importante porque pode ser diagnosticado tardiamente. Na unha, pode se manifestar como faixa escura longitudinal, pigmentação que se alarga, alteração da lâmina ungueal ou pigmento que invade a pele ao redor da unha.

 

Melanoma amelanótico

 

É o melanoma com pouca ou nenhuma pigmentação escura. Pode parecer uma lesão rosada, avermelhada, ferida persistente ou nódulo inespecífico. É perigoso justamente porque foge da imagem clássica da “pinta preta”.

 

O melanoma nasce sempre de uma pinta antiga?

Não.

 

O melanoma pode surgir de uma pinta pré-existente, mas também pode aparecer em pele aparentemente normal. Por isso, o paciente não deve se preocupar apenas com as pintas antigas. Uma lesão nova, principalmente após a idade adulta, deve ser observada com atenção.

Também é importante não cair no erro oposto: nem toda pinta antiga é perigosa. Muitas pintas permanecem estáveis por décadas. O que preocupa é a mudança, a diferença em relação às outras lesões e os achados clínicos suspeitos.

 

Quem tem maior risco de melanoma?

 

Fatores de risco não significam que a pessoa terá melanoma. Eles apenas indicam que a vigilância deve ser mais cuidadosa.

 

Entre os principais fatores estão:

 

pele clara, olhos claros, cabelos loiros ou ruivos;

* tendência a queimaduras solares;

* queimaduras solares intensas, especialmente na infância e adolescência;

* muitas pintas pelo corpo;

* nevos, ou pintas, atípicos;

* história pessoal de melanoma;

* história familiar de melanoma;

* imunossupressão;

* uso de câmaras de bronzeamento artificial;

* exposição solar intensa, intermitente e sem proteção adequada.

 

O National Cancer Institute destaca como fatores de risco para melanoma a pele que queima com facilidade, muitos nevos, nevos displásicos, histórico familiar, exposição solar e imunossupressão.

A radiação ultravioleta é um fator modificável importante. A IARC classifica a radiação solar como carcinogênica para humanos e relaciona a radiação ultravioleta ao melanoma e aos cânceres de pele não melanoma.

As câmaras de bronzeamento artificial merecem menção direta: a IARC classificou dispositivos emissores de radiação UV para bronzeamento como carcinogênicos para humanos e relatou aumento de risco de melanoma quando o uso começa antes dos 30 anos.

No Brasil, esses equipamentos estão proibidos pela ANVISA desde 2009.


Infográfico sobre fatores de risco para melanoma, destacando pessoas que merecem atenção especial, como quem tem muitas pintas ou nevos atípicos, história pessoal ou familiar, pele clara com queimaduras solares, exposição a câmaras de bronzeamento, imunossupressão e lesão nova ou em mudança.
Alguns fatores aumentam o risco de melanoma e indicam a necessidade de vigilância dermatológica mais cuidadosa

Protetor solar evita melanoma?


O protetor solar é uma ferramenta importante, mas não deve ser apresentado como solução isolada.

Prevenção adequada envolve um conjunto de medidas: evitar queimaduras solares, buscar sombra, usar roupas, chapéus, óculos, reduzir exposição intensa em horários críticos e aplicar corretamente protetor solar de amplo espectro.

O erro mais comum é usar protetor como se fosse uma “autorização” para exposição solar prolongada. 

Protetor reduz dano, mas não torna a exposição ilimitada segura. A orientação deve ser equilibrada: proteger-se do excesso de radiação ultravioleta sem transformar a vida ao ar livre em motivo de medo.

 

Exame dermatológico: o que o médico avalia?

 

A consulta para avaliação de lesões pigmentadas não deve se limitar a olhar uma pinta isolada. O dermatologista avalia a lesão suspeita, mas também compara com o restante da pele.

 

O exame pode incluir:

 

* história da lesão;

* tempo de aparecimento;

* mudança recente;

* sintomas como sangramento, dor, coceira ou crescimento;

* histórico pessoal e familiar;

* exame da pele como um todo;

* avaliação de couro cabeludo, unhas, palmas e plantas quando indicado;

* dermatoscopia;

* decisão entre acompanhamento, biópsia ou tratamento.

 

A dermatoscopia é uma ferramenta útil, mas não substitui o julgamento clínico nem o exame anatomopatológico quando a lesão é suspeita.

Em melanoma, a biópsia correta continua sendo o passo decisivo para confirmar o diagnóstico.

 

Dermatoscopia digital: quando ajuda e quando pode atrapalhar?

 

A dermatoscopia digital e o mapeamento corporal podem ser úteis em pacientes selecionados, especialmente aqueles com muitas pintas, nevos atípicos, histórico pessoal de melanoma ou alto risco familiar.

Mas é preciso deixar algo claro: fotografar uma lesão claramente suspeita para “acompanhar” pode atrasar o diagnóstico.

O acompanhamento fotográfico sequencial tem valor quando a lesão é duvidosa, sem critérios suficientes para biópsia imediata, e quando o paciente tem múltiplas lesões que precisam de comparação ao longo do tempo. Não deve ser usado como desculpa para adiar a remoção de uma lesão que já apresenta sinais clínicos ou dermatoscópicos preocupantes.

 

Em outras palavras: a fotografia é auxiliar. O diagnóstico definitivo vem da biópsia.

 

Quando fazer biópsia?

 

Quando há suspeita clínica de melanoma, a conduta mais segura é a biópsia adequada da lesão.

A técnica preferencial, quando possível, é a biópsia excisional, ou seja, a retirada completa da lesão com pequena margem de pele normal. A diretriz da American Academy of Dermatology recomenda biópsia completa/excisional estreita, com margens de 1 a 3 mm, incluindo toda a largura da lesão e profundidade suficiente para evitar transecção da base.

Isso é importante porque o laudo precisa medir a profundidade do melanoma. Se a biópsia for superficial demais ou fragmentada, vai dificultar a avaliação do Breslow, que é uma das informações mais importantes para definir tratamento e prognóstico.

Somente em lesões muito grandes, áreas de difícil reconstrução, face, região acral, unha ou situações em que a retirada completa inicial não é tecnicamente adequada, pode-se optar por biópsia incisional, punch dirigido ou outra abordagem planejada. Mas essa decisão deve ser técnica, não uma simplificação apressada.

O ponto central é: a biópsia deve permitir diagnóstico confiável e planejamento correto.

 

O que é Breslow?


Breslow é a medida da profundidade do melanoma em milímetros. Ele indica o quanto o tumor invadiu verticalmente a pele.

Essa informação é fundamental porque ajuda a definir:

 

* margem cirúrgica definitiva;

* necessidade de discutir linfonodo sentinela;

* risco de recorrência;

* estadiamento;

* necessidade de avaliação oncológica em casos selecionados;

* seguimento.

 

As diretrizes da ESMO destacam que o laudo histológico deve incluir, entre outros dados, tipo de melanoma, espessura máxima em milímetros, ulceração, microsatélites, invasão linfovascular, neurotropismo, linfócitos infiltrantes, regressão e situação das margens.

A profundidade microscópica do melanoma, chamada Breslow, é decisiva para planejar o tratamento.


Infográfico explicando a profundidade de Breslow no melanoma, com esquema das camadas da pele mostrando epiderme, derme, subcutâneo e a invasão do tumor em profundidade.
A profundidade de Breslow indica o quanto o melanoma invadiu a pele e ajuda a orientar margem cirúrgica, estadiamento, risco de recidiva e decisões sobre tratamentos adicionais.

O que deve constar no laudo anatomopatológico?

 

O laudo deve trazer informações suficientes para orientar o tratamento. Entre os dados importantes estão:

 

* diagnóstico de melanoma;

* subtipo histológico;

* espessura de Breslow;

* presença ou ausência de ulceração;

* índice mitótico, quando informado;

* margens periféricas e profunda;

* regressão;

* invasão linfovascular;

* neurotropismo ou invasão perineural;

* microsatélites;

* nível de Clark, quando útil;

* presença de melanoma in situ associado;

* se houve transecção da base.

 

Um laudo incompleto pode gerar insegurança.


Depois da biópsia, por que muitas vezes é feita uma nova cirurgia?

 

A primeira biópsia confirma o diagnóstico. Depois, conforme o resultado, é indicada a ampliação de margens.

Isso significa retirar uma faixa adicional de pele ao redor da cicatriz ou da área onde estava o melanoma, com o objetivo de reduzir risco de doença residual local.

As margens variam conforme o melanoma é in situ ou invasivo e conforme a espessura de Breslow. Diretrizes europeias recomendam, de forma geral, margens de 0,5 cm para melanoma in situ, 1 cm para tumores até 2 mm de espessura e até 2 cm para tumores mais espessos, com adaptações em áreas anatômicas especiais.

Esses números nem sempre são aplicados rigidamente. A margem definitiva depende do laudo, da localização, da idade, das condições clínicas, da possibilidade de fechamento e do julgamento da equipe.

 

O que é linfonodo sentinela?

 

O linfonodo sentinela é o primeiro linfonodo, ou grupo de linfonodos, que recebe a drenagem linfática da região onde estava o melanoma. Ele pode ser analisado para verificar se há células tumorais microscópicas.

O objetivo principal é estadiamento. Ou seja, entender melhor o risco e orientar decisões posteriores. Não é um exame indicado para todos os melanomas.

De forma geral, a biópsia do linfonodo sentinela é discutida em melanomas com maior risco, especialmente quando a espessura de Breslow é maior que 0,8 mm, quando há ulceração ou outros fatores adversos.

Um resultado negativo é uma informação favorável, embora não elimine a necessidade de seguimento. Um resultado positivo indica que células do melanoma chegaram ao primeiro linfonodo de drenagem e muda o estadiamento da doença. Isso pode levar à discussão de tratamento adjuvante e acompanhamento mais próximo.

É importante entender que linfonodo sentinela positivo não significa automaticamente que todos os linfonodos daquela região precisarão ser retirados. A decisão depende do estágio, do volume de doença, dos exames, do risco individual e da avaliação conjunta da equipe.

 

Todo melanoma precisa de tomografia, PET-CT ou ressonância?

Não.

Exames de imagem devem ser proporcionais ao estágio e ao risco. Em melanomas muito iniciais, sem sinais clínicos de disseminação, exames extensos podem não trazer benefício e podem gerar achados incidentais, ansiedade e investigações desnecessárias.

Em melanomas mais espessos, ulcerados, com linfonodo positivo, sintomas ou suspeita de doença avançada, exames de imagem passam a ter papel maior no estadiamento e no planejamento terapêutico.

O seguimento também deve ser proporcional. A ESMO orienta monitoramento clínico durante o acompanhamento para detectar recidiva e novos tumores cutâneos, especialmente melanomas secundários, o mais cedo possível.

 

Como é o tratamento do melanoma? O tratamento depende do estágio.

 

Melanoma in situ

 

É o melanoma restrito à epiderme, sem invasão da derme. O tratamento costuma ser cirúrgico, com margem adequada. Em áreas especiais, como face, podem ser consideradas técnicas que preservem tecido e controlem melhor as margens, conforme o caso.

 

Melanoma invasivo inicial

 

O tratamento principal é a retirada cirúrgica com margens definitivas conforme Breslow. Dependendo da profundidade e de fatores de risco, pode-se discutir linfonodo sentinela.

 

Melanoma com linfonodo, ou gânglio, positivo

 

Quando há comprometimento linfonodal, a condução deve envolver uma equipe especializada. Pode haver cirurgia, tratamento adjuvante, imunoterapia, terapia-alvo em casos com mutação BRAF, ou estratégias neoadjuvantes em situações específicas.

 

Melanoma avançado ou metastático

 

Até alguns anos atrás, o melanoma metastático tinha poucas opções realmente eficazes. Esse cenário mudou de forma importante com a chegada da imunoterapia e das terapias-alvo.

 

A imunoterapia não age destruindo diretamente o tumor como uma quimioterapia tradicional. Ela procura reativar a resposta imunológica do próprio paciente contra as células tumorais. Entre os medicamentos usados em diferentes cenários estão os anti-PD-1, como pembrolizumabe e nivolumabe, o anti-CTLA-4, como ipilimumabe, e combinações de imunoterapia.


A ESMO lista como opções de primeira linha para melanoma irressecável estágio III ou IV o bloqueio de PD-1, a combinação nivolumabe-ipilimumabe e a combinação nivolumabe-relatlimabe, além de terapias-alvo para pacientes com mutação BRAF V600.

A combinação nivolumabe + relatlimabe trouxe uma nova forma de imunoterapia combinada, associando bloqueio de PD-1 e LAG-3. A FDA aprovou essa combinação para melanoma irressecável ou metastático em adultos e pacientes pediátricos a partir de 12 anos.


Quando o melanoma apresenta mutação BRAF V600, podem ser usadas terapias-alvo, geralmente combinando inibidores de BRAF e MEK. Essas medicações atuam sobre vias moleculares específicas do tumor. Por isso, em casos avançados, testar mutações como BRAF pode ser decisivo para escolher o tratamento.


A ESMO recomenda pesquisar BRAF V600 em pacientes com melanoma metastático, preferencialmente em metástases ou, quando necessário, no tumor primário.

Nos casos de melanoma que recidiva depois de tratamento prévio, a escolha depende de vários fatores: estágio da recidiva, tempo desde o tratamento anterior, presença ou ausência de mutação BRAF, localização das metástases, sintomas, idade, estado geral do paciente e tratamentos já utilizados.


Diretrizes europeias reforçam que, quando há recidiva após tratamento neoadjuvante ou adjuvante, a decisão deve considerar qual tratamento foi usado antes e se a recidiva ocorreu durante ou após esse tratamento.

A disponibilidade desses tratamentos varia conforme país, sistema de saúde, registro regulatório, cobertura e avaliação oncológica individual.


Apesar desses avanços, a mensagem principal continua a mesma: o melhor cenário ainda é diagnosticar o melanoma cedo, quando o tratamento pode ser mais simples, mais localizado e com maior chance de cura.

Esses tratamentos devem ser indicados e conduzidos em conjunto com um oncologista clínico.


Infográfico mostrando o fluxo racional do diagnóstico e tratamento do melanoma, desde a lesão suspeita, exame dermatológico e biópsia até laudo, ampliação cirúrgica, estadiamento e seguimento.
A conduta no melanoma deve seguir uma sequência lógica: suspeita, exame, biópsia, laudo, ampliação, estadiamento e seguimento.

A conduta no melanoma deve seguir uma sequência lógica: suspeita, exame, biópsia, laudo, ampliação, estadiamento e seguimento.

 

O que não fazer diante de uma lesão suspeita?


Uma lesão suspeita de melanoma não deve ser destruída sem diagnóstico. Antes de qualquer procedimento, é preciso avaliação adequada e, quando indicada, biópsia para exame anatomopatológico.

Não tente tratar uma lesão suspeita por conta própria. Não use ácidos, pomadas, laser estético, cauterização ou qualquer procedimento destrutivo antes de uma avaliação médica adequada.

Também não é seguro esperar meses para “ver se muda mais” quando a lesão já apresenta sinais de alerta.


O aplicativo de celular não substitui o exame médico. A foto pode ajudar em situações selecionadas, mas não deve ser usada para tranquilizar o paciente diante de uma lesão suspeita.

A pressa ruim é tratar sem diagnóstico. A demora ruim é observar uma lesão suspeita indefinidamente.

O caminho correto é avaliação médica e biópsia adequada quando indicada.

 

Melanoma pode coçar, doer ou sangrar?

 

Pode, mas muitos melanomas iniciais, assim como outros tipos de câncer de pele, podem não causar sintoma algum.

 

Coceira, dor, sangramento, crosta, ferida que não cicatriza ou mudança de sensibilidade são sinais que devem aumentar a atenção. Mas a ausência de sintomas não tranquiliza completamente. Uma lesão pode ser melanoma mesmo sem dor e sem sangramento.

Por isso, o principal sinal continua sendo mudança: lesão nova, diferente ou em evolução.

 

Melanoma de unha: quando suspeitar?

 

Alterações ungueais merecem cuidado quando há:

 

* faixa escura longitudinal nova;

* faixa que aumenta de largura;

* pigmentação irregular;

* escurecimento em apenas uma unha;

* pigmento que avança para a pele ao redor da unha;

* deformidade progressiva da unha;

* sangramento ou ferida sem explicação;

* alteração atribuída a “trauma” que não melhora.

 

Nem toda faixa escura na unha é melanoma. 

Existem causas benignas, especialmente em pessoas de pele mais escura. Mas uma alteração nova, progressiva ou isolada em adulto deve ser examinada.

 

Melanoma em idosos

 

Em idosos, o melanoma pode ser confundido com manchas solares, queratoses seborreicas, feridas crônicas ou alterações atribuídas ao envelhecimento.

O lentigo maligno é mais comum em áreas de dano solar crônico, como a face. Pode crescer lentamente por anos, o que às vezes leva à falsa sensação de segurança.

A mensagem para familiares e cuidadores é simples: mancha irregular que cresce, escurece, muda de cor ou apresenta áreas diferentes dentro dela deve ser avaliada.

 

Melanoma em jovens

 

Melanoma é mais comum com o avanço da idade, mas pode ocorrer em adultos jovens.

Em jovens, muitas lesões pigmentadas são benignas, mas isso não elimina a necessidade de avaliar mudanças relevantes.

História familiar, múltiplos nevos atípicos, queimaduras solares intensas, bronzeamento artificial e melanoma prévio aumentam a necessidade de vigilância.

 

O que o paciente deve observar em casa?

 

O autoexame não substitui o dermatologista, mas ajuda a perceber mudanças.

 

Uma vez por mês ou em intervalos orientados pelo médico, observe:

 

* rosto e orelhas;

* couro cabeludo, com ajuda de outra pessoa;

* tronco;

* costas;

* braços e antebraços;

* mãos e unhas;

* pernas;

* plantas dos pés;

* entre os dedos;

* região genital, quando houver lesão percebida.

 

Use espelho ou peça ajuda. Fotografe uma lesão apenas para documentar mudança, mas não use a foto como substituta da consulta se houver sinal de alerta.

 

Quando procurar dermatologista com prioridade?

 

Procure avaliação com prioridade se houver:

 

* pinta nova e escura em adulto;

* lesão que cresce rapidamente;

* pinta que mudou de cor, forma ou tamanho;

* lesão com várias cores;

* bordas irregulares;

* sangramento sem trauma;

* ferida que não cicatriza;

* faixa escura nova na unha;

* lesão diferente de todas as outras;

* nódulo pigmentado ou rosado que surgiu recentemente;

* histórico pessoal de melanoma e nova lesão suspeita.

 

Aplicativos de inteligência artificial conseguem diagnosticar melanoma?

 

Aplicativos podem ajudar a chamar atenção para algumas lesões, mas não substituem exame médico. O aplicativo analisa a imagem enviada. Ele não examina o paciente inteiro, não palpa linfonodos, não compara todas as pintas, não avalia adequadamente couro cabeludo, unhas, palmas, plantas e mucosas, e pode falhar quando a foto é ruim ou quando a lesão escolhida não é a mais importante.


O maior risco é a falsa tranquilização: o paciente recebe uma resposta “baixo risco” e adia a consulta, mesmo tendo uma lesão que mereceria biópsia.

A inteligência artificial pode ter papel auxiliar no futuro, mas, no melanoma, a decisão clínica e o exame anatomopatológico continuam centrais.

 

Melanoma tem cura?

 

Sim, muitos melanomas têm cura, especialmente quando diagnosticados cedo e tratados corretamente.

Mas “cura” em melanoma deve ser dita com responsabilidade. Um melanoma in situ ou muito fino, completamente tratado, tem excelente prognóstico. Melanomas mais espessos, ulcerados, com linfonodos ou metástases exigem abordagem mais complexa, seguimento rigoroso e, muitas vezes, acompanhamento conjunto com um oncologista clínico.

A melhor forma de aumentar a chance de cura é não atrasar o diagnóstico.

 

Como é o seguimento depois do tratamento?

O seguimento depende do estágio, do risco individual, do número de pintas, da presença de nevos atípicos, do histórico familiar, da idade e das condições clínicas.

 

Pode incluir:

 

* exame dermatológico periódico;

* orientação de autoexame;

* avaliação da cicatriz;

* palpação de linfonodos;

* dermatoscopia;

* mapeamento corporal em pacientes selecionados;

* exames de imagem quando indicados pelo estágio;

* acompanhamento oncológico em casos de maior risco.

 

Pacientes que tiveram melanoma têm maior risco de novo melanoma no futuro. Por isso, o seguimento não é apenas para procurar recidiva. É também para detectar novos tumores de pele.

 

E a família do paciente com melanoma?

 

Familiares de primeiro grau podem ter risco aumentado, especialmente quando há vários casos na família, melanoma em idade jovem, múltiplos melanomas ou associação com muitos nevos atípicos.

Nem toda família precisa de teste genético. Mas algumas precisam de avaliação mais cuidadosa, orientação preventiva e exame dermatológico regular.

Quando há suspeita de síndrome familiar, o médico pode discutir aconselhamento genético.

 

Perguntas frequentes sobre melanoma

 

Toda pinta escura é melanoma?

 

Não. A maioria das pintas escuras é benigna. O que preocupa é assimetria, bordas irregulares, cores variadas, crescimento, mudança recente ou diferença em relação às outras pintas.

 

Melanoma sempre dói?

 

Não. Muitos melanomas iniciais não causam dor, coceira ou sangramento.

 

Posso acompanhar uma pinta suspeita por foto?

 

Depende. Fotografias podem ajudar em casos selecionados, mas lesão realmente suspeita deve ser avaliada por dermatologista e muitas vezes biopsiada. Foto não substitui diagnóstico.

 

Dermatoscopia evita biópsia?

 

Às vezes evita biópsias desnecessárias, mas não substitui a biópsia quando a lesão é suspeita. Dermatoscopia é ferramenta auxiliar, não substituta do anatomopatológico.

 

A biópsia espalha o melanoma?

 

Não há base para evitar biópsia por medo de “espalhar”. Ao contrário: a biópsia correta permite diagnóstico e tratamento adequados.

 

Melanoma pode ser pequeno?

 

Sim. Embora o diâmetro maior que 6 mm seja sinal de alerta, melanomas podem ser menores.

 

Melanoma pode ser claro ou vermelho?

 

Sim. O melanoma amelanótico é raro, pode ter pouca pigmentação e parecer rosado, avermelhado ou inespecífico.

 

Toda faixa escura na unha é melanoma?

 

Não. Existem causas benignas. Algumas pessoas tem estas faixas em mais de uma unha. Mas faixa escura nova, progressiva, irregular ou associada a alteração da pele ao redor da unha deve ser avaliada.

 

Quem já teve melanoma precisa examinar a pele para sempre?

 

Sim, em geral o acompanhamento é prolongado, porque há risco de recidiva e de novos melanomas.

 

Protetor solar sozinho previne melanoma?

 

Não sozinho. Ele faz parte da proteção, mas deve ser combinado com sombra, roupas, chapéu, óculos, redução de queimaduras solares e evitar bronzeamento artificial.

 

Conclusão

 

O melanoma é um câncer de pele em que tempo, método e precisão importam muito.

A mensagem não deve ser de pânico, mas também não deve ser de banalização.

Muitas lesões pigmentadas são benignas.

Muitas pintas podem ser apenas acompanhadas.

Mas uma lesão nova, diferente, irregular ou em mudança não deve ser negligenciada.

O diagnóstico precoce salva pele, evita tratamentos maiores e pode salvar vidas.

A biópsia bem indicada continua sendo uma das decisões mais importantes no cuidado do melanoma.

 

Referências

 

1. INCA — Câncer de pele melanoma: versão para população

2. INCA — Estimativas 2026: Brasil, casos novos por tipo de câncer

3. SEER — Cancer Stat Facts: Melanoma of the Skin

4. American Cancer Society — Signs and Symptoms of Melanoma Skin Cancer

5. Skin Cancer Foundation — Sinais e imagens de alerta de melanoma

6. American Academy of Dermatology — Melanoma Clinical Guideline

7. Journal of the American Academy of Dermatology — Guidelines of care for the management of primary cutaneous melanoma

8. ESMO — Cutaneous melanoma: Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up

9. ASCO/SSO — Sentinel Lymph Node Biopsy and Management of Regional Lymph Nodes in Melanoma

10. National Cancer Institute — Common Moles, Dysplastic Nevi, and Risk of Melanoma

11. National Cancer Institute — What Does Melanoma Look Like?

12. IARC/WHO — UV-emitting tanning devices classified as carcinogenic to humans

13. ANVISA — Câmaras de bronzeamento artificial

14. ANVISA — RDC nº 56, de 9 de novembro de 2009


Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.

 

Dr. Olivério Carvalho é médico dermatologista em São Paulo, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e especialista em Dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação em câncer de pele, cirurgia dermatológica e criocirurgia. Sua prática é voltada ao diagnóstico preciso e à escolha individualizada do tratamento, incluindo biópsias de pele, atendimento de pacientes idosos, avaliação de casos complexos e segunda opinião médica. CRM-SP 59.971 — RQE 108.382


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