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Médicos criados por inteligência artificial estão dando informações falsas na internet

Foto do escritor: Dr. Olivério Carvalho
Dr. Olivério Carvalho
10 de set.
4 min de leitura

O médico que você vê na internet pode nem existir.


édico falso criado por inteligência artificial aparece em vídeo na internet divulgando informações de saúde sem comprovação científica.
Com a inteligência artificial, já é possível criar falsos médicos com aparência e voz convincentes para divulgar informações de saúde sem comprovação.

“A novidade é perturbadora: já não se fabrica apenas a informação falsa. Agora também é possível fabricar o próprio especialista que irá apresentá-la

 

Durante muitos anos, uma recomendação relativamente simples ajudava a avaliar informações médicas encontradas na internet: verifique quem está falando.


Quem é o médico? Qual é sua formação? Ele possui registro profissional? É um especialista naquela área?


A inteligência artificial acaba de tornar essa verificação mais difícil.


O governo federal identificou recentemente 97 perfis no YouTube utilizando inteligência artificial para simular médicos e outros profissionais de saúde.


Não eram simplesmente pessoas dando opiniões médicas equivocadas.


Em alguns casos, o próprio profissional apresentado ao público sequer existia.

Avatares com aparência humana eram apresentados como médicos ou especialistas, recebiam qualificações profissionais fictícias e utilizavam linguagem alarmista para transmitir credibilidade.


Segundo o Ministério da Saúde, esses conteúdos divulgavam informações falsas, prometiam curas ou tratamentos sem comprovação científica e podiam direcionar o público para produtos e serviços pagos.


A Advocacia-Geral da União notificou o Google, responsável pelo YouTube, solicitando providências contra esses conteúdos. Os casos também foram encaminhados à Polícia Federal e ao Conselho Federal de Medicina.


Quando até o médico pode ser uma invenção


A desinformação médica não surgiu com a inteligência artificial.


Promessas de curas milagrosas, tratamentos sem evidências sérias e produtos apresentados como revolucionários existem há muito tempo.


O que mudou foi a capacidade de fabricar credibilidade.


Hoje é possível criar digitalmente um rosto convincente, uma voz natural e um personagem que fala olhando para a câmera com segurança e aparente conhecimento.

Pode-se inventar seu nome, sua especialidade, seu currículo e até sua suposta experiência profissional.


Com os avanços tecnológicos, para quem assiste rapidamente a um vídeo na tela de um celular, distinguir um profissional verdadeiro de um personagem produzido por inteligência artificial pode se tornar cada vez mais difícil.


Por que alguém criaria um médico que não existe?

Em alguns casos, uma possível resposta seria obtenção de lucro.


Segundo o levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde, alguns desses conteúdos direcionavam usuários para produtos, livros digitais ou serviços pagos.


A falsa autoridade médica pode funcionar como parte de uma estratégia comercial.

Primeiro cria-se um problema ou amplifica-se um medo.


Depois aparece o suposto especialista explicando que determinada informação importante estaria sendo ignorada.


Por fim surge uma solução: um produto, suplemento, método, curso ou tratamento.

A inteligência artificial apenas tornou essa velha fórmula muito mais fácil de produzir em grande escala.


O problema não é a inteligência artificial


Seria um erro concluir que a IA seja necessariamente uma ameaça à medicina.


O problema surge quando a tecnologia é utilizada para simular uma autoridade que não existe ou apresentar informação falsa com aparência de conhecimento médico legítimo.


Uma ferramenta pode ajudar a produzir informação de qualidade.

Porém, a mesma ferramenta pode produzir desinformação em escala industrial.

A tecnologia é a mesma. O objetivo é que muda.


Nem todo médico verdadeiro está necessariamente certo


Existe ainda uma questão mais delicada.


Confirmar que o profissional realmente existe é apenas o primeiro passo.


Um médico verdadeiro também pode divulgar informação de má qualidade.


Pode interpretar incorretamente um estudo.


Pode apresentar opinião pessoal como se fosse consenso científico.


Pode exagerar os benefícios de um medicamento ou tratamento.


Pode minimizar riscos.


E pode ter interesse financeiro no produto ou procedimento que está recomendando.


Portanto, CRM, diploma e especialidade são importantes para verificar quem está falando, mas não transformam automaticamente uma afirmação em verdade científica.


A pergunta seguinte continua sendo necessária:


Quais são as evidências científicas para aquilo que está sendo afirmado?


Desconfiar principalmente das certezas absolutas


Alguns sinais devem aumentar a cautela diante de conteúdos médicos nas redes sociais:


  • Promessas de cura rápida ou resultados extraordinários.

  • Afirmações de que existe um tratamento eficaz que “ninguém quer que você conheça”.

  • Ataques genéricos à medicina ou à ciência utilizados para vender uma alternativa.

  • Depoimentos pessoais apresentados como "prova de eficácia".

  • Pressão para comprar imediatamente determinado produto.


E, cada vez mais importante, um suposto especialista cuja existência e formação não podem ser confirmadas fora daquela própria rede social.


Quanto mais extraordinária a promessa, maior deve ser a exigência de evidências e de confirmação por fontes independentes.


A aparência de autoridade nunca foi garantia de verdade


A inteligência artificial está tornando extremamente fácil produzir imagens, vozes e personagens convincentes.


Isso significa que uma característica na qual aprendemos a confiar, que seria ver uma pessoa falando diante de nós, está perdendo parte de seu valor como prova de autenticidade.


Na saúde, isso merece atenção especial.


Uma informação errada pode não produzir apenas desperdício de dinheiro.


Pode estimular automedicação, atrasar um diagnóstico ou levar alguém a abandonar um tratamento realmente necessário.


Talvez estejamos entrando em uma época em que precisaremos reaprender uma regra bastante antiga:


não importa apenas quem parece estar falando. É preciso descobrir quem realmente está falando — e quais evidências sustentam aquilo que está sendo dito.


Referência:



Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.


Dr. Olivério Carvalho é médico dermatologista em São Paulo, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e especialista em Dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação em câncer de pele, cirurgia dermatológica e criocirurgia.

CRM-SP 59.971 — RQE 108.382

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