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Testosterona não é tratamento estético

Foto do escritor: Dr. Olivério Carvalho
Dr. Olivério Carvalho
11 de set.
6 min de leitura

Quando a reposição é indicada e o que o excesso pode fazer com o organismo, especialmente com a pele e os cabelos


Ilustração médica sobre os efeitos do excesso de testosterona, mostrando acne, oleosidade, queda de cabelo e aumento de pelos em homens e mulheres.
Testosterona: quando o uso deixa de ser para reposição com indicação médica precisa e passa a trazer riscos para a pele, os cabelos e o organismo.

A testosterona não é um tratamento estético e sim um hormônio fundamental para o organismo e sua reposição, quando existe deficiência hormonal verdadeira, pode ser um tratamento médico importante.


O problema começa quando ela deixa de ser utilizada para tratar uma doença e passa a ser apresentada como instrumento para aumentar disposição, ganhar músculos, emagrecer, melhorar a libido, retardar o envelhecimento ou produzir benefícios estéticos.


Nos últimos anos, a testosterona ganhou espaço fora das indicações médicas clássicas.


Expressões como “otimização hormonal”, “modulação hormonal”, “reposição preventiva” e até os chamados “chips da beleza” contribuíram para criar a impressão de que níveis mais altos do hormônio poderiam significar necessariamente mais saúde, juventude ou desempenho.


Mas hormônio não é suplemento alimentar.


Em 2026, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e a Associação Brasileira de Medicina Sexual e Saúde (ABEMSS) publicaram o primeiro posicionamento conjunto brasileiro sobre o diagnóstico e tratamento do hipogonadismo masculino.


Um de seus objetivos declarados é justamente reduzir tanto o subdiagnóstico quanto o tratamento excessivo.


E existe um aspecto dessa discussão que costuma receber menos atenção: a pele e os cabelos também respondem aos hormônios androgênicos e também podem sofrer as consequências do excesso hormonal.


Testosterona baixa em um exame não significa necessariamente doença


O hipogonadismo masculino não deve ser diagnosticado apenas porque um exame mostrou testosterona abaixo de determinado número.


O diagnóstico depende da associação entre quadro clínico compatível e redução hormonal confirmada laboratorialmente.


Entre os sintomas que merecem atenção estão especialmente redução da libido, diminuição das ereções espontâneas e alterações da função sexual.


Já manifestações muito inespecíficas como cansaço, redução de disposição, alterações de humor ou aumento de gordura abdominal, podem ter inúmeras outras causas e, isoladamente, não estabelecem deficiência de testosterona.


Ou seja: não se trata simplesmente de encontrar um número num exame laboratorial e corrigi-lo.


Também é preciso procurar a causa.


Obesidade, doenças metabólicas, determinados medicamentos e até o uso prévio de esteroides anabolizantes podem produzir alterações hormonais potencialmente reversíveis.


Nesses casos, tratar o problema de base pode ser mais apropriado do que iniciar imediatamente uma reposição hormonal.


Reposição não é a mesma coisa que usar testosterona para ganhar músculos


Essa distinção é fundamental.


Em um homem com hipogonadismo corretamente diagnosticado, a testosterona é utilizada procurando restabelecer níveis fisiológicos e melhorar manifestações relacionadas à deficiência hormonal.


Isso é muito diferente de administrar testosterona ou outros esteroides androgênicos a alguém que já possui produção hormonal normal para obter hipertrofia muscular, redução de gordura, desempenho esportivo ou alterações da aparência.


Reposição fisiológica, uso em doses acima do necessário e abuso de esteroides anabolizantes são situações muito diferentes, com perfis de risco diferentes.


No Brasil, o Conselho Federal de Medicina, por meio da Resolução nº 2.333/2023, veda a prescrição de esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética, para ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo.


A norma não impede o tratamento de doenças em que exista indicação médica reconhecida.


E o que a Dermatologia tem a ver com isso?


Muito.


A pele não é uma estrutura passiva diante dos hormônios.


As glândulas sebáceas e os folículos pilosos respondem aos andrógenos.


A testosterona e, particularmente, seu metabólito di-hidrotestosterona (DHT), participam da regulação da produção sebácea e do funcionamento dos pelos e cabelos.


Por isso, o excesso de atividade androgênica também pode se manifestar na pele e nos cabelos


Acne e oleosidade


Uma das manifestações mais características do aumento da atividade androgênica é a estimulação das glândulas sebáceas.


A pele pode ficar mais oleosa e a acne pode surgir ou piorar.


Em algumas pessoas aparecem apenas algumas lesões. Em outras, principalmente diante de exposição elevada a andrógenos, podem surgir formas inflamatórias importantes, inclusive no tronco.


É um paradoxo interessante: uma substância utilizada com objetivo de melhorar a aparência corporal pode acabar provocando uma doença dermatológica capaz de deixar cicatrizes permanentes.


Testosterona e queda de cabelo


Outra consequência possível é a aceleração da alopecia androgenética em indivíduos predispostos.


A di-hidrotestosterona exerce papel importante na miniaturização progressiva dos folículos do couro cabeludo geneticamente suscetíveis.


Isso não significa que todo homem que faz reposição de testosterona ficará calvo.

A predisposição genética e a sensibilidade individual dos folículos são fundamentais.


Nas mulheres, as consequências podem ser ainda mais evidentes


Em agosto de 2026, a Anvisa publicou um alerta específico sobre o assunto.


A Agência chamou atenção para informações divulgadas nas redes sociais segundo as quais mulheres deveriam utilizar testosterona para obter “pele mais firme”, ganho de massa muscular, emagrecimento, aumento da libido, disposição ou prevenção do envelhecimento.


Essas promessas não correspondem às indicações reconhecidas pela evidência científica.


Acne, pelos e queda de cabelo nas mulheres


O excesso androgênico feminino possui manifestações dermatológicas bem conhecidas.

Entre elas estão aumento da oleosidade, acne adulta, hirsutismo e queda de cabelo de padrão androgênico (masculino).


O hirsutismo corresponde ao aparecimento ou aumento de pelos em regiões dependentes de andrógenos, como face, queixo, tórax e abdome.


A alopecia pode produzir redução progressiva da densidade capilar.


Acne adulta, hirsutismo e alopecia são, inclusive, manifestações clássicas investigadas pelos dermatologistas quando existe suspeita de hiperandrogenismo espontâneo. Naturalmente, a exposição hormonal externa também pode produzir manifestações semelhantes.


Em exposições mais intensas, especialmente com esteroides anabolizantes, podem ocorrer sinais de virilização, como engrossamento da voz, alterações menstruais, aumento de massa muscular, modificações na distribuição dos pelos e aumento do clitóris.


Algumas dessas alterações podem não regredir completamente após a interrupção do hormônio.


E os chamados “chips da beleza”?


O nome provavelmente é um dos melhores exemplos de como a linguagem de marketing pode modificar a percepção de risco de uma intervenção médica.

Um implante contendo hormônios não se torna produto de beleza porque recebeu um nome atraente.


A Anvisa proíbe a comercialização e utilização de implantes hormonais manipulados à base de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos com finalidade estética, para ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo.


O problema dos implantes também envolve uma característica importante: depois que determinada quantidade de hormônio foi implantada, não existe a mesma facilidade de ajuste diário de dose existente em algumas outras formulações.


Por isso, promessas de benefícios amplos envolvendo beleza, juventude, emagrecimento, energia e sexualidade deveriam ser recebidas com muita cautela.


A pele pode ser apenas a parte visível do problema


Acne, oleosidade e queda de cabelo incomodam porque são imediatamente percebidas.

Mas o uso inadequado de testosterona e de outros esteroides androgênicos não é exclusivamente um problema dermatológico.


Podem ocorrer alterações hematológicas, metabólicas, cardiovasculares, hepáticas, reprodutivas e psiquiátricas, dependendo da substância, dose, duração e características individuais.


Pode ainda haver redução na produção testicular de espermatozoides.

Portanto, homens que pretendem ter filhos precisam discutir especificamente a questão da fertilidade antes de iniciar o tratamento.


Não é preciso demonizar um hormônio para combater seu uso inadequado


Talvez esse seja o ponto mais importante. A testosterona não é vilã.


Para determinados pacientes, é medicamento necessário e capaz de melhorar sintomas e qualidade de vida.


O erro está em transformar um tratamento médico destinado a situações específicas em uma espécie de produto universal para juventude, estética ou desempenho.


Referências:


  1. Hohl A, Lopes L, Ronsoni MF, et al. Care of Patients with Male Hypogonadism: A Joint Position Statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM), the Brazilian Society of Urology (SBU), and the Brazilian Association for Sexual Medicine and Health (ABEMSS). International Brazilian Journal of Urology. 2026;52(3):e20250610. doi:10.1590/S1677-5538.IBJU.2025.0610.

  2. Abou Chawareb E, Campos L, Savio L, et al. Dermatological adverse effects of testosterone replacement therapy: a scoping review of the literature. Sexual Medicine Reviews. 2026;14(1):qeaf061. doi:10.1093/sxmrev/qeaf061.

  3. Sardana K, Muddebihal A, Sehrawat M, Bansal P, Khurana A. An updated clinico-investigative approach to diagnosis of cutaneous hyperandrogenism in relation to adult female acne, female pattern alopecia & hirsutism: a primer for dermatologists. Expert Review of Endocrinology & Metabolism. 2024;19(2):111-128. doi:10.1080/17446651.2023.2299400.

  4. Brinks AL, Needle CD, Spindler AJ, et al. Alopecia in Female Athletes Using Androgenic and Anabolic Steroids: Pathophysiology and Management. International Journal of Dermatology. 2025;64(12):2235-2246. doi:10.1111/ijd.17941.

  5. Davis SR, Baber R, Panay N, et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism. 2019;104(10):4660-4666. doi:10.1210/jc.2019-01603.

  6. Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Anvisa. Reposição de testosterona NÃO é obrigatória para mulheres. Publicado em 7 de agosto de 2026.

  7. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023. Regulamenta a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes.

  8. Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Anvisa. Implantes hormonais. Orientações e restrições para implantes hormonais manipulados.


Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.


Dr. Olivério Carvalho é médico dermatologista em São Paulo, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e especialista em Dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação em câncer de pele, cirurgia dermatológica e criocirurgia.

CRM-SP 59.971 — RQE 108.382

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