Gravidez não aumenta o risco de melanoma. Grande estudo não encontrou aumento do risco.
- Dr. Olivério Carvalho

- 17 de ago.
- 4 min de leitura
Atualizado: há 7 dias

Durante muitos anos, discutiu-se se as alterações hormonais e imunológicas da gravidez poderiam aumentar o risco de uma mulher desenvolver melanoma.
A preocupação tem uma explicação: durante a gestação ocorrem importantes modificações hormonais e adaptações do sistema imunológico. Além disso, algumas mulheres percebem alterações na pigmentação da pele e em algumas pintas.
Mas isso significa que a gravidez aumenta o risco de melanoma?
Um grande estudo publicado em 2026 na revista Melanoma Research, envolvendo mais de 1,7 milhão de mulheres, traz uma resposta tranquilizadora: não foi encontrado aumento significativo do risco de melanoma durante a gravidez nem no primeiro ano após o parto.
Foram comparadas:
854.193 mulheres grávidas
854.193 mulheres não grávidas
Os pesquisadores procuraram tornar os dois grupos semelhantes por meio de pareamento estatístico, considerando fatores como idade, características demográficas, algumas doenças relacionadas ao sistema imunológico e ao risco de câncer, além de indicadores indiretos de exposição solar e acompanhamento dermatológico.
As participantes foram avaliadas durante aproximadamente 21 meses, período correspondente à gravidez e ao primeiro ano após o parto.
Foram analisados tanto casos de melanoma invasivo quanto de melanoma in situ, a forma mais superficial e inicial da doença.
O que o estudo encontrou?
As mulheres grávidas não desenvolveram melanoma com maior frequência do que mulheres semelhantes que não estavam grávidas.
Também não foram encontradas diferenças significativas quando os melanomas foram analisados de acordo com sua localização no corpo, como cabeça e pescoço, tronco ou extremidades.
Isso significa que a gravidez protege contra o melanoma?
Não.
O estudo mostrou ausência de aumento significativo do risco. Isso não significa que a gravidez tenha efeito protetor contra a doença.
A conclusão apropriada é:
este grande estudo não encontrou evidências de que a gravidez seja, por si só, um fator independente de risco para o desenvolvimento de melanoma.
E sobre as alterações homonais durante a gravidez?
As alterações hormonais e imunológicas da gestação são justamente uma das razões pelas quais essa relação vem sendo discutida há décadas. Entretanto, mesmo em uma população muito grande, o estudo não encontrou aumento da incidência de melanoma associado à gravidez.
Isso enfraquece a hipótese de que as alterações hormonais normais da gestação, isoladamente, aumentem de forma importante o risco da doença.
Outra questão, porém, é diferente:
Se uma mulher já apresenta um melanoma, a gravidez modifica o comportamento ou o prognóstico desse tumor?
Este estudo não foi desenvolvido para responder essa pergunta. O prognóstico de uma mulher que apresenta melanoma durante a gravidez deve ser avaliado individualmente, considerando principalmente as características do próprio tumor.
Uma pinta que muda durante a gravidez pode ser ignorada?
Não.
Esse talvez seja o ponto mais importante para quem lê este texto.
Dizer que a gravidez não parece aumentar o risco de melanoma não significa que uma gestante não possa desenvolver a doença.
Melanomas também podem ocorrer em mulheres jovens e, naturalmente, podem ser diagnosticados durante uma gravidez.
Por isso, uma lesão suspeita deve ser avaliada independentemente da gestação.
É importante procurar avaliação quando uma pinta, por exemplo:
- cresce progressivamente;
- muda de formato;
- apresenta várias cores;
- torna-se muito diferente das demais;
- desenvolve bordas irregulares;
- sangra sem uma causa evidente;
- apresenta alguma transformação persistente que chama a atenção.
Não é prudente atribuir automaticamente uma alteração suspeita apenas aos “hormônios da gravidez”.
Quais são as limitações do estudo?
Apesar do número impressionante de participantes, o trabalho tem limitações.
Trata-se de um estudo retrospectivo baseado em registros eletrônicos de saúde.
Os pesquisadores analisaram informações previamente registradas e não acompanharam prospectivamente cada mulher desde o início do estudo.
O pareamento estatístico torna os grupos mais semelhantes, mas não consegue eliminar completamente fatores que não foram registrados ou adequadamente medidos.
Exposição solar acumulada durante a vida, características individuais das pintas, antecedentes familiares e comportamento diante do sol são exemplos de fatores difíceis de avaliar com precisão em grandes bancos de dados.
Outra limitação importante é o período estudado: a análise compreendeu a gravidez e aproximadamente um ano após o parto.
Portanto, o trabalho não permite excluir eventuais efeitos que surgissem muitos anos depois. Por essas razões, seria exagerado afirmar que essa discussão científica está definitivamente encerrada.
Perguntas frequentes:
1. A gravidez aumenta o risco de melanoma?
Este grande estudo não encontrou aumento significativo do risco de melanoma invasivo nem de melanoma in situ durante a gravidez e até um ano após o parto.
2. As alterações hormonais da gravidez aumentam o risco de melanoma?
Alterações hormonais e imunológicas da gestação já foram consideradas possíveis fatores capazes de influenciar o melanoma. Entretanto, o estudo não encontrou evidências de aumento da ocorrência da doença associado à gravidez.
3. Uma pinta pode mudar durante a gravidez?
Algumas alterações de pigmentação podem acontecer durante a gestação. Porém, uma pinta que cresce, muda de cor ou formato, sangra ou se torna muito diferente das demais não deve ser automaticamente atribuída à gravidez e merece avaliação dermatológica.
4. É possível desenvolver melanoma durante a gravidez?
Sim. A conclusão do estudo é que a gravidez não parece aumentar o risco, mas, não que o melanoma deixe de ocorrer nesse período.
5. A gravidez piora um melanoma já existente?
Essa é uma questão diferente da investigada neste estudo. O prognóstico de um melanoma depende principalmente das características do próprio tumor e deve ser avaliado individualmente.
Em resumo
Em mais de 1,7 milhão de mulheres, a gravidez não esteve associada a aumento significativo do risco de melanoma durante a gestação ou no primeiro ano após o parto.
É uma informação tranquilizadora, mas não significa que alterações suspeitas em uma pinta devam ser atribuídas somente à gravidez.
Uma lesão que muda de maneira significativa continua merecendo avaliação médica e, quando houver indicação, ela deve ser retirada e enviada ao laboratório para exame anátomo patológico e esclarecimento do diagnóstico.
Referência
Block BR, Mehta J, Powers CM, Ungar J, Farabi Atak SB, Gulati N. Pregnancy and risk of melanoma: a matched retrospective cohort study. Melanoma Research. 2026;36(4):349-352. doi:10.1097/CMR.0000000000001109.
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.
Dr. Olivério Carvalho é médico dermatologista em São Paulo, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e especialista em Dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação em câncer de pele, cirurgia dermatológica e criocirurgia. Sua prática é voltada ao diagnóstico preciso e à escolha individualizada do tratamento, incluindo biópsias de pele, atendimento de pacientes idosos, avaliação de casos complexos e segunda opinião médica. CRM-SP 59.971 — RQE 108.382



