Sua pele precisa mesmo de tratamento? A Dermatologia pode estar transformando o normal em problema

Atualizado: há 5 dias

Há uma diferença importante entre tratar uma doença e convencer uma pessoa de que uma característica normal da sua pele precisa ser corrigida.
Durante muito tempo, a Dermatologia esteve principalmente associada ao diagnóstico e tratamento de doenças: acne, psoríase, dermatites, infecções, câncer de pele e inúmeras outras condições.
Nas últimas décadas, entretanto, uma parte cada vez mais visível da especialidade passou a ocupar outro território: o da aparência. Nada há de errado, por si só, em alguém desejar melhorar uma característica estética que o incomoda.
A questão começa a ficar mais complexa quando poros, linhas de expressão, textura, manchas decorrentes do envelhecimento ou outras variações normais da pele passam a ser apresentadas como problemas que exigem tratamento.
Esse é um debate que tem me chamado cada vez mais a atenção ao longo dos anos e que agora chega às páginas de uma das tradicionais revistas científicas da Dermatologia.
Quando menos pode ser mais
Na edição de setembro de 2026 do British Journal of Dermatology, pesquisadores britânicos publicaram a perspectiva “When less is more: the role of dermatologists in promoting societal and self-acceptance of skin health and disease”.
"Quando menos é mais: o papel dos dermatologistas na promoção da aceitação social e pessoal da saúde e das doenças da pele."
O título já resume a provocação: quando menos é mais.
Os autores discutem como redes sociais, medicina estética, interesses financeiros e uma cultura progressivamente orientada para procedimentos podem contribuir para a supermedicalização das diferenças visíveis da pele.
O artigo chama atenção inclusive para algo que vemos diariamente nas redes sociais: a tentativa de alcançar uma espécie de “normalidade ideal” que, na prática, talvez nem exista.
· Poros passam a ser defeitos.
· O que os autores chamam de "sebaceous filaments", estruturas sebáceas normalmente visíveis na pele, tornam-se algo a ser eliminado.
· Linhas que aparecem quando sorrimos transformam-se em sinais que precisam ser prevenidos cada vez mais cedo.
O próprio artigo menciona essas características como exemplos de variações normais e saudáveis da pele que passaram a ser alvo de intervenções.
Quem definiu como deveria ser uma pele normal?
Esse talvez seja o ponto mais interessante da discussão.
É relativamente fácil responsabilizar apenas os influenciadores digitais, a indústria cosmética ou as redes sociais.
Mas os autores fazem uma pergunta mais desconfortável: qual é a responsabilidade dos próprios dermatologistas neste contexto?
A medicina não apenas trata aquilo que a sociedade considera doença.
Em alguma medida, também ajuda a estabelecer os limites entre aquilo que é doença, alteração, imperfeição ou simplesmente uma característica humana normal.
Quando um médico identifica continuamente novos problemas que podem ser corrigidos por produtos, aparelhos, produtos injetáveis ou uma gama cada vez maior de procedimentos, existe o risco de transformar uma pessoa saudável em um paciente permanente.
E existe uma particularidade impossível de ignorar: muitas vezes quem define o problema também vende a solução.
Isso não significa que o tratamento oferecido seja necessariamente inadequado. Significa, porém, que existe um potencial conflito de interesses que merece ser reconhecido.
Este debate não começou agora
Embora o artigo de 2026 do British Journal of Dermatology traga o tema novamente para o debate, a preocupação com os limites da Dermatologia estética não é nova.
Em 1998, o então Archives of Dermatology, hoje JAMA Dermatology, publicou o artigo “The Morality of Cosmetic Surgery for Aging”. A autora questionava por que dermatologistas realizavam procedimentos para apagar sinais naturais do envelhecimento, quais objetivos pretendiam alcançar e quais poderiam ser as consequências para o paciente, para a profissão e para a própria sociedade.
A questão levantada há quase três décadas permanece atual: a Medicina avançou enormemente naquilo que é capaz de fazer, mas isso não elimina a necessidade de discutir aquilo que deveria fazer.
No mesmo ano, outra publicação do Archives of Dermatology adotou um título ainda mais provocador: “Are We Consultants or Peddlers?” — “Somos consultores ou vendedores?”. O texto discutia a crescente pressão para que dermatologistas passassem a comercializar cosméticos dentro dos próprios consultórios e o conflito criado quando quem recomenda um produto também obtém benefício com sua venda.
Em 2006, a mesma revista publicou o editorial “Taking Ethics Seriously in Cosmetic Dermatology”, chamando atenção para a vulnerabilidade particular da Dermatologia estética a questões éticas e à possível erosão da confiança entre médicos e pacientes.
Mais recentemente, em 2024, o JAAD International publicou “The ethics of cosmetic overtreatment”, discutindo diretamente o risco de excesso de tratamento estético e a responsabilidade profissional diante de pacientes submetidos a sucessivas intervenções.
A preocupação também ultrapassou os limites da Dermatologia. Em 2017, um editorial da própria The Lancet recebeu o título “Cosmetic procedures: a cause for concern”, mostrando que questões relacionadas à imagem corporal, à expansão dos procedimentos cosméticos e à necessidade de regulação passaram a ser discutidas também por uma das principais revistas médicas do mundo.
Portanto, não se trata de um debate recente sobre a estética. Há pelo menos três décadas, a própria literatura médica vem debatendo onde termina o cuidado legítimo com a aparência e onde pode começar a criação de necessidades, o excesso de intervenção e o conflito entre Medicina e mercado.
A medicina estética é o problema?
Não.
Seria igualmente equivocado concluir que tratamentos estéticos são inúteis ou que desejar melhorar a aparência representa algum tipo de distúrbio.
Existem tratamentos capazes de produzir resultados reais, e uma característica aparentemente pequena pode provocar sofrimento importante para determinada pessoa.
A decisão continua sendo individual.
O problema começa quando o tratamento estético da pele cria uma necessidade onde antes havia apenas uma característica normal.
“Isso incomoda você e existem opções para melhorar.”
“Você tem um problema que precisa ser tratado.”
A primeira frase respeita a autonomia do paciente.
A segunda pode criar um paciente.
A máquina das redes sociais
Há ainda um componente novo.
Nunca observamos nosso próprio rosto tantas vezes.
Selfies, câmeras frontais, videoconferências, filtros e fotografias ampliadas permitem examinar detalhes da pele que provavelmente passariam despercebidos algumas décadas atrás.
Ao mesmo tempo, somos expostos continuamente a rostos tratados, maquiados, iluminados, filtrados ou digitalmente modificados. O referencial de normalidade muda.
Uma pele humana real começa a parecer defeituosa quando comparada a uma pele que, muitas vezes, nem sequer existe fora de uma tela.
Um trabalho apresentado em 2026 e publicado em suplemento do British Journal of Dermatology discutiu a influência dos chamados ‘skinfluencers’ sobre a percepção da pele e o comportamento dos pacientes. Os autores alertam para informação médica inadequada, uso compulsivo de produtos e até atraso na procura por atendimento médico entre pessoas muito dependentes desse tipo de conteúdo.
Talvez não fazer nada também possa ser uma decisão médica equilibrada
Esta é provavelmente a parte mais provocadora do artigo.
Os autores sugerem que, em determinadas situações, aceitação e neutralidade corporal também podem representar resultados clínicos legítimos.
Isso não significa abandonar pacientes com doenças.
Significa reconhecer que nem toda variação humana precisa de uma intervenção.
Um bom médico não deveria ser avaliado apenas pela quantidade de tratamentos que oferece. Às vezes, seu papel pode ser justamente dizer:
“Isso é normal. Se não incomoda você, não precisa fazer nada.” |
Pode parecer uma frase banal.
Mas, em uma medicina cada vez mais orientada para procedimentos, talvez esteja se tornando uma das frases mais importantes que um médico pode dizer.
É importante colocar o artigo em perspectiva
O trabalho publicado no British Journal of Dermatology é uma perspectiva, e não um ensaio clínico, estudo epidemiológico ou revisão sistemática. Seu desenho não permite quantificar a dimensão do tema nem estabelecer relações de causa e efeito.
Portanto, ele não demonstra que a Dermatologia esteja globalmente supermedicalizada nem prova que procedimentos estéticos causem prejuízo.
O valor desta publicação é outro.
Ele coloca dentro da própria literatura dermatológica uma pergunta ética que merece ser discutida:
Estamos tratando aquilo que realmente precisa ser tratado ou estamos, algumas vezes, transformando características normais da pele em oportunidades de tratamento? |
Talvez não exista uma resposta simples.
Mas uma especialidade médica madura deveria ser capaz de refletir sobre esta pergunta.
Referência:
Demirel S, McPherson T, Rajan N, Affleck A. When less is more: the role of dermatologists in promoting societal and self-acceptance of skin health and disease. British Journal of Dermatology. 2026;195(3):508–509. DOI: 10.1093/bjd/ljag239.
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.
Dr. Olivério Carvalho é médico dermatologista em São Paulo, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e especialista em Dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação em câncer de pele, cirurgia dermatológica e criocirurgia.
CRM-SP 59.971 — RQE 108.382



