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A dermatologia está ficando estética demais?

Foto do escritor: Dr. Olivério Carvalho
Dr. Olivério Carvalho
26 de ago.
6 min de leitura

O que os números mostram


O Brasil tem milhares de dermatologistas ao mesmo tempo que está entre os maiores mercados de procedimentos estéticos do mundo.


Muitos pacientes vem relatando dificuldades para encontrar profissionais dedicados ao diagnóstico e tratamento de doenças da pele, cirurgia dermatológica e câncer de pele.


Isso significa que os dermatologistas estão deixando a dermatologia clínica para trabalhar principalmente com estética?


Os dados disponíveis não permitem uma conclusão tão simples. Mas, mostram uma transformação na especialidade que merece ser amplamente debatida.


A questão não se restringe apenas ao Brasil


Um grande levantamento publicado em 2026 no JAMA (Journal of the American Medical Association) Dermatology avaliou o acesso à assistência dermatológica em 158 países, representando aproximadamente 97% da população mundial.


Este levantamento internacional encontrou dados relevantes:


em países de alta renda, 59% dos respondentes consideraram a migração de dermatologistas para práticas voltadas à estética um problema capaz de agravar as desigualdades de acesso à assistência dermatológica.


em 42% destes países, o acesso à dermatologia foi considerado inadequado ou extremamente inadequado.


em média, 79% dos dermatologistas estavam concentrados em áreas urbanas.


21% dos países avaliados sequer possuíam programas próprios de formação em dermatologia.


O estudo mostra que o acesso ao dermatologista é um problema mundial e que, em muitas regiões, médicos de atenção primária, enfermeiros, farmacêuticos e outros profissionais acabam assumindo parte importante do atendimento inicial das doenças da pele, sobretudo onde há poucos dermatologistas.



Infográfico com dados do JAMA Dermatology sobre acesso à dermatologia no mundo, destacando 158 países avaliados, concentração urbana de dermatologistas e impacto da migração para práticas cosméticas

No Brasil existem muitos dermatologistas, mas eles também estão distribuídos de maneira desigual


A situação brasileira tem uma característica que se repete. Os dermatologistas estão fortemente concentrados nos grandes centros urbanos e nas regiões de maior renda.


Um estudo brasileiro encontrou dermatologistas vinculados à SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia) em apenas 527 dos 5.570 municípios brasileiros, ou seja, 9,5% dos municípios.


Este estudo também encontrou correlação entre densidade de dermatologistas e IDH e mostrou 8.384 membros da SBD distribuídos nestes 527 municípios.


Quanto maior o IDH e maior a população de uma cidade, maior a probabilidade de existir um dermatologista disponível.


Portanto, o número total de especialistas no país não significa necessariamente acesso fácil à dermatologia para toda a população.


Existe outra questão que merece atenção.


A estética ocupa um espaço enorme dentro da dermatologia brasileira


Um estudo sobre o setor brasileiro de procedimentos estéticos não cirúrgicos estimou que cerca de 87% dos dermatologistas avaliados participavam, de alguma maneira, desse mercado.


Isso não significa que 87% dos dermatologistas trabalhem predominantemente com estética ou tenham abandonado a dermatologia clínica e cirúrgica.


Um médico pode tratar doenças da pele, fazer cirurgias dermatológicas e, ao mesmo tempo, realizar procedimentos estéticos em parte de sua atividade profissional.


O estudo também não foi desenvolvido para medir quantas horas cada dermatologista dedica à clínica, cirurgia ou estética. Portanto, não permite afirmar que a estética esteja substituindo diretamente o atendimento médico.


Porém, demonstra algo difícil de ignorar: a estética passou a ocupar uma parcela muito importante da prática dermatológica e do mercado brasileiro.


Por que a estética se tornou tão atraente?


Existem razões econômicas bastante compreensíveis.


Procedimentos estéticos são predominantemente realizados em regime particular, sem valores condicionados às tabelas dos convênios e sem a mesma necessidade de autorizações e burocracia para cobrança.


O próprio médico ou a clínica pode estabelecer seus próprios preços na estética.


Muitos procedimentos são relativamente simples e rápidos e alguns ainda precisam ser repetidos periodicamente.


Existe ainda uma demanda crescente por toxina botulínica, preenchimentos, lasers, tecnologias que oferecem rejuvenescimento e inúmeros outros tratamentos.


Em contraste, uma consulta clínica pode envolver diagnóstico complexo, análise de exames, acompanhamento prolongado e tudo isto com remuneração muito menor, quando realizada através de determinados planos de saúde ou no setor de saúde pública.


Cirurgias dermatológicas também podem exigir mais tempo, material, estrutura, acompanhamento pós-operatório e responsabilidade médica.


O setor público também pode enfrentar dificuldades para atrair e reter dermatologistas quando oferece remuneração e condições de trabalho menos competitivas do que as oportunidades disponíveis no setor privado, especialmente quando comparado ao setor de procedimentos estéticos.


É razoável supor que incentivos econômicos tão diferentes possam influenciar escolhas profissionais.


O estudo internacional do JAMA de 2026 já identificou a migração para práticas predominantemente cosméticas como um problema de acesso em parte importante dos países avaliados.


Ainda faltam, porém, estudos capazes de medir quanto esse fenômeno interfere especificamente na disponibilidade de dermatologia clínica e cirúrgica no Brasil.


Talvez o foco esteja errado


Normalmente, quando se discute falta de especialistas, conta-se simplesmente quantos médicos existem. 


Mas talvez isso não seja suficiente.


Basta imaginar uma cidade qualquer com dezenas, centenas ou até milhares de dermatologistas.


Esse número é bruto e não informa quantos estão realmente disponíveis para:


  • atender doenças dermatológicas;

  • diagnosticar câncer de pele;

  • realizar biópsias;

  • operar tumores;

  • atender crianças;

  • receber pacientes idosos ou com múltiplas doenças;

  • trabalhar com planos de saúde;

  • atender pelo SUS;

  • realizar consultas de urgência.


Portanto, talvez o mais importante não seria saber


“Quantos dermatologistas existem?”


E sim:


“O quanto da capacidade desses dermatologistas está efetivamente disponível para o diagnóstico e tratamento das doenças da pele?”


São perguntas muito diferentes.


E o câncer de pele?


Essa questão se torna especialmente relevante no que concerne ao câncer de pele.


O dermatologista é treinado para reconhecer tumores, examinar lesões suspeitas, fazer biópsias e tratar diversos tipos de câncer de pele.


Carcinomas basocelulares e espinocelulares são extremamente frequentes na população em geral, e o melanoma pode ser uma doença potencialmente fatal quando diagnosticado tardiamente.


Além disso, o envelhecimento da população tende a aumentar o número de pacientes com tumores cutâneos nas próximas décadas.


Portanto, mesmo que aumente o número total de dermatologistas, isso não garante que aumente na mesma proporção a disponibilidade de profissionais interessados e preparados para atender dermatologia clínica, cirurgia dermatológica e câncer de pele.


Esse é um aspecto que as estatísticas atuais ainda não medem bem.


A existência e o crescimento da dermatologia estética não são, por si só, o problema


Seria injusto transformar o debate numa crítica aos procedimentos estéticos.


A cosmiatria faz parte da Dermatologia e pode produzir benefícios reais para muitos pacientes.


A questão é saber se o crescimento desse setor pode coexistir com uma oferta suficiente de profissionais dedicados ao diagnóstico e tratamento das doenças dermatológicas.


São necessidades diferentes e ambas podem e deveriam existir dentro da mesma especialidade.


O que merece atenção é identificar se os incentivos econômicos estão progressivamente modificando a distribuição do tempo, da formação e do interesse profissional dos dermatologistas. Hoje temos indícios de que isso possa estar ocorrendo.


Mas, ainda não temos dados suficientes para medir sua magnitude e o impacto que isto teria na saúde pública.



Tecnologia, teledermatologia e inteligência artificial vão resolver o problema?


O estudo mundial publicado no JAMA Dermatology também ajuda a entender por que teledermatologia e inteligência artificial estão sendo cada vez mais discutidas.


Em lugares onde simplesmente não existe dermatologista disponível, essas ferramentas podem ajudar a ampliar o acesso.


Elas podem auxiliar na triagem, organizar encaminhamentos e facilitar a comunicação entre profissionais.


Mas tecnologia não cria automaticamente médicos capazes de examinar, biopsiar, operar ou acompanhar um paciente quando isso é necessário.


Uma fotografia enviada pelo celular pode ajudar numa triagem. 


Porém, ela não substitui toda a assistência dermatológica.


O verdadeiro desafio continua sendo garantir o acesso a profissionais qualificados quando o paciente realmente precisa de avaliação médica para doenças dermatológicas.


O que os dados permitem concluir?


Os dados atuais sustentam algumas conclusões com razoável segurança:


  • existe dificuldade de acesso à Dermatologia em grande parte do mundo;

  • os dermatologistas estão fortemente concentrados nos grandes centros urbanos;

  • o Brasil apresenta distribuição geográfica muito desigual desses especialistas;

  • a estética ocupa hoje uma parcela muito importante do mercado dermatológico brasileiro;

  • existem diferenças importantes nos incentivos econômicos entre a atividade estética e o atendimento clínico e cirúrgico, que podem contribuir para mudanças na distribuição da atividade profissional dos dermatologistas


Os dados atuais não demonstram que a maioria dos dermatologistas tenha abandonado a dermatologia clínica e cirúrgica ou que a estética seja diretamente responsável pela falta de acesso ao atendimento médico.


Mas, essa relação precisa ser estudada de maneira mais profunda, afinal, isto envolve a saúde pública.


Em resumo


Talvez o debate sobre falta de dermatologistas esteja levando à pergunta errada.

Não basta saber quantos especialistas existem.


É preciso saber quantos estão efetivamente disponíveis para diagnosticar e tratar doenças da pele.


A expansão da dermatologia estética é uma realidade e possui múltiplas razões.


Paralelamente, continua existindo necessidade de profissionais dedicados à dermatologia clínica, cirurgia dermatológica, diagnóstico de lesões e câncer de pele.


O desafio não é escolher entre dermatologia clínica, cirúrgica e estética. 


É garantir que o crescimento de uma área não seja acompanhado pela redução da disponibilidade da outra.


Referências:


  1. Freeman EE, Yardman-Frank JM, Kilmer J, et al. Global Disparities in Access to Dermatological Care. JAMA Dermatology. Published online August 26, 2026. doi:10.1001/jamadermatol.2026.3112.

  2. Nascimento BA, Motta FJTRA, Silva FASCF, Dias-Neves F, Torreão G, Anlicoara R. Cosmiatry: An analysis of the Brazilian market. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica. 2024;39(1):e0814. doi:10.5935/2177-1235.2023RBCP0814-EN.

  3. Brazilian Society of Dermatology; Schmidt SM, Miot HA, Luz FB, Sousa MAJ, Palma SLL, Sanches Junior JA. Demographics and spatial distribution of the Brazilian dermatologists. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2018;93(1):99-103. doi:10.1590/abd1806-4841.20187395.

  4. Sociedade Brasileira de Dermatologia; Miot HA, Penna GO, Ramos AMC, Penna MLF, Schmidt SM, et al. Profile of dermatological consultations in Brazil (2018). Anais Brasileiros de Dermatologia. 2018;93(6):916-928. doi:10.1590/abd1806-4841.20188802.

  5. Scheffer M, coord. Demografia Médica no Brasil 2025. Brasília, DF: Ministério da Saúde; Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; Associação Médica Brasileira; 2025. 446 p. ISBN 978-65-5993-754-7.



Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.


Dr. Olivério Carvalho é médico dermatologista em São Paulo, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e especialista em Dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação em câncer de pele, cirurgia dermatológica e criocirurgia.

CRM-SP 59.971 — RQE 108.382

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