Vitaminas realmente tratam a queda de cabelo?

Atualizado: há 3 dias
Antes de começar a tomar suplementos, é preciso descobrir a causa da queda de cabelos.

Um caso recente divulgado pela mídia, envolvendo o uso de um produto injetável oferecido para ‘fortalecimento dos cabelos’, trouxe novamente à tona uma questão importante: vitaminas realmente tratam a queda de cabelo?
A resposta não é tão simples quanto muitas propagandas fazem parecer.
Vitaminas e minerais participam do funcionamento normal do organismo e alguns deles também têm importância para o crescimento dos cabelos.
Isso, porém, é muito diferente de afirmar que qualquer pessoa que esteja perdendo cabelo precisa tomar suplementos.
Queda de cabelo não é um diagnóstico
A queixa de queda de cabelos é um sintoma e não um diagnóstico.
Portanto, ao contrário do que muitos pensam, não existe “algo bom para queda de cabelo” de forma genérica.
Existem diferentes tipos de queda e inúmeras causas possíveis.
Eflúvio telógeno, alopecia androgenética, alopecia areata, doenças do couro cabeludo, medicamentos, alterações hormonais, deficiência de ferro, algumas deficiências nutricionais e diversas outras condições podem produzir queixas aparentemente semelhantes.
E nem toda queda de cabelo precisa ser tratada.
Em algumas situações, como determinados eflúvios após infecções, cirurgias, alterações importantes do organismo ou no período após o parto, a queda pode ser temporária e melhorar à medida que o ciclo dos cabelos se normaliza.
Em outras, existe uma alteração que pode ser corrigida.
Há ainda situações em que os tratamentos disponíveis apresentam resultados limitados e não conseguem devolver ao paciente a quantidade de cabelos que ele gostaria de recuperar.
Por isso, antes de decidir se há necessidade de tratamento, qual tratamento pode trazer benefício e o que realisticamente se pode esperar dele, é preciso primeiro descobrir o que está acontecendo.
Essa distinção é importante porque a preocupação provocada pela queda de cabelo torna o paciente particularmente vulnerável a promessas de vitaminas, suplementos, fórmulas e procedimentos apresentados como capazes de resolver um problema que, em alguns casos, sequer necessita de tratamento ou para o qual não existe uma solução capaz de produzir o resultado prometido.
Essa etapa parece óbvia, mas muitas vezes é esquecida.
O paciente percebe que o cabelo está caindo e rapidamente começa a utilizar vitaminas, suplementos, shampoos, fórmulas manipuladas ou procedimentos, algumas vezes antes mesmo de existir um diagnóstico.
Vitaminas realmente fazem o cabelo crescer?
Algumas vitaminas e minerais são necessários para o funcionamento normal do folículo piloso.
Mas existe uma diferença fundamental entre corrigir uma deficiência e começar a administrar suplementos para uma pessoa que já possui níveis adequados desses nutrientes.
Uma vitamina necessária para o cabelo não necessariamente fará o cabelo crescer mais quando administrada em quantidade adicional.
É o mesmo princípio que vale para inúmeras funções do organismo: corrigir aquilo que está faltando pode ser importante; fornecer quantidades excessivas não significa obter um benefício maior.
Biotina: a famosa “vitamina do cabelo”
A biotina, também conhecida como vitamina B7, tornou-se extremamente popular em produtos destinados aos cabelos e às unhas.
A deficiência verdadeira de biotina pode provocar queda de cabelo. Entretanto, essa deficiência é incomum em pessoas saudáveis com alimentação habitual.
Uma revisão publicada em 2024 avaliou os estudos disponíveis sobre o uso de biotina oral para crescimento dos cabelos. Poucos trabalhos apresentavam qualidade adequada e, no estudo controlado por placebo de melhor qualidade, não houve diferença significativa no crescimento capilar entre quem recebeu biotina e quem recebeu placebo.
Isso ilustra bem uma questão importante: uma substância pode ser necessária para o funcionamento normal do cabelo, mas isso não significa que sua suplementação traga benefício para quem não apresenta deficiência.
E a vitamina D?
A vitamina D tem despertado bastante interesse nessa área.
Diversos estudos encontraram níveis mais baixos de vitamina D em determinados grupos de pacientes com diferentes tipos de alopecia, incluindo eflúvio telógeno, alopecia areata e alopecia androgenética.
Mas é preciso interpretar esses resultados corretamente.
Encontrar níveis menores de vitamina D em pessoas com queda de cabelo demonstra apenas uma associação.
Não significa necessariamente que a deficiência seja a causa da queda e, principalmente, não demonstra que administrar vitamina D para qualquer paciente fará o cabelo voltar a crescer.
Quando existe deficiência comprovada, ela deve ser avaliada no contexto clínico, podendo haver indicação de correção
O que não se justifica é transformar essa associação em suplementação automática como solução para pacientes com queda de cabelo.
Ferro também merece atenção
Embora o ferro não seja uma vitamina, ele frequentemente aparece nessa discussão.
Níveis baixos de ferritina podem estar associados ao eflúvio telógeno, particularmente em algumas mulheres, e sua investigação pode ser indicada dependendo da história clínica. Porém os estudos não são inteiramente uniformes
Novamente, o princípio é o mesmo: investigar primeiro e tratar aquilo que realmente estiver alterado. Não se deve partir automaticamente da queixa de queda de cabelo para uma combinação genérica de vitaminas e minerais, sem saber se existe alguma deficiência.
Vitaminas também podem causar problemas
Existe uma ideia bastante difundida de que vitaminas são naturais e, portanto, sempre seguras.
Não é bem assim.
Algumas vitaminas podem produzir efeitos adversos quando utilizadas em excesso.
Um exemplo interessante é a vitamina A. Sua deficiência pode provocar alterações no organismo, mas seu excesso também pode causar problemas, e entre eles está justamente a queda de cabelo.
A biotina em doses elevadas apresenta outra questão importante: pode interferir em determinados exames laboratoriais que utilizam métodos dependentes de biotina, produzindo resultados falsamente altos ou baixos.
Entre os exames que podem ser afetados, dependendo do método utilizado pelo laboratório, estão algumas dosagens de hormônios da tireoide, hormônios sexuais, marcadores cardíacos e outros imunoensaios. A interferência na troponina merece atenção especial, pois já foram descritos resultados falsamente baixos, com risco de dificultar o diagnóstico de um infarto.
Portanto, mesmo quando falamos de vitaminas, a lógica de que “se um pouco faz bem, tomando mais, o resultado deve ser ainda melhor” não funciona.
Injetável não significa mais eficaz
Existe ainda a percepção de que uma substância administrada por injeção seria necessariamente mais potente ou mais eficaz do que aquela utilizada por via oral.
Isso também não é verdade.
A via de administração deve ser escolhida de acordo com a substância, a doença, a absorção e a indicação clínica.
Aplicar uma vitamina por injeção não transforma um tratamento sem indicação em um tratamento eficaz.
Além disso, qualquer substância administrada por via injetável acrescenta riscos próprios do procedimento, como reações adversas, infecção e, embora raramente, reações alérgicas graves.
Por isso, a decisão de utilizar um medicamento ou suplemento injetável precisa ter uma indicação clínica clara.
O problema começa quando se trata antes de diagnosticar
A queda de cabelo pode causar grande preocupação.
Essa preocupação também criou um enorme mercado de vitaminas, suplementos, shampoos, fórmulas e procedimentos que prometem reduzir a queda ou estimular o crescimento dos cabelos.
Alguns tratamentos possuem boa fundamentação científica. Outros ainda apresentam poucas evidências.
Existem situações em que deficiências nutricionais realmente devem ser corrigidas, outras em que a queda tende a melhorar espontaneamente e também aquelas em que as possibilidades de recuperação são muito limitadas.
Mas nenhuma dessas situações elimina a necessidade do diagnóstico.
Não existe uma vitamina que seja "boa para queda de cabelo" e que possa ser indicada indistintamente para todas as pessoas.
Antes de tomar suplementos, receber injeções ou realizar procedimentos, a pergunta mais importante continua sendo:
Por que este cabelo está caindo?
Só depois dessa resposta é possível saber se é necessário tratar, o que pode ser tratado e quais resultados podem realmente ser esperados.
Referências:
1)Yelich A, Jenkins H, Holt S, Miller R. Biotin for Hair Loss: Teasing Out the Evidence. J Clin Aesthet Dermatol. 2024;17(8):56-61.
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5)Almohanna HM, Ahmed AA, Tsatalis JP, Tosti A. The Role of Vitamins and Minerals in Hair Loss: A Review. Dermatol Ther (Heidelb). 2019;9:51-70.
6)Ahmed A, Alali A, Alahmadi M, et al. Association between Serum Trace Elements and Telogen Effluvium: A Systematic Review and Meta-Analysis. Skin Appendage Disord. 2026 Mar 18. Online ahead of print. doi:10.1159/000550921.
7)Podolsky AS, et al. Adjunctive approaches for androgenetic alopecia: A clinical review of nutritional, light-based, topical, and lifestyle interventions. J Am Acad Dermatol. 2026.
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.
Dr. Olivério Carvalho é médico dermatologista em São Paulo, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e especialista em Dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação em câncer de pele, cirurgia dermatológica e criocirurgia.
CRM-SP 59.971 — RQE 108.382



