top of page

Feridas não precisam "respirar" e nem devem ficar abertas para cicatrizar

Foto do escritor: Dr. Olivério Carvalho
Dr. Olivério Carvalho
há 3 dias
4 min de leitura
Pessoa aplicando curativo sobre pequena úlcera superficial de aproximadamente 1 cm na perna, com orientações sobre umidade adequada, proteção da ferida e papel auxiliar das pomadas na cicatrização.
Ferida protegida com curativo. Em muitas situações, manter a lesão limpa, protegida e em ambiente adequadamente úmido favorece o processo natural de cicatrização.

É comum ouvir que uma ferida deve ficar descoberta para “respirar”, secar e formar rapidamente uma crosta.


Essa ideia, ainda muito difundida, não é sustentada pelas evidências atuais para muitas feridas.”


Em geral, a cicatrização ocorre melhor quando a superfície da ferida é mantida limpa, protegida com curativo e em um ambiente adequadamente úmido, e não ressecado.


A crosta (casquinha) é necessária para a cicatrização?


A formação de uma crosta faz parte da resposta natural de algumas feridas, mas isso não significa que uma crosta espessa e seca seja necessária para que a pele cicatrize.


Para fechar uma ferida, células da epiderme migram progressivamente a partir das suas bordas, recobrindo a área lesionada durante o processo de reepitelização


Quando a superfície fica excessivamente seca, esse deslocamento celular pode ser dificultado. Em um ambiente úmido controlado, os queratinócitos conseguem migrar com maior facilidade, favorecendo a cicatrização.


Estudos também relacionam o ambiente úmido a condições mais favoráveis para a angiogênese, atividade dos fibroblastos e síntese de colágeno, processos importantes na reparação da pele.


Por isso, o objetivo não é simplesmente “fazer uma casquinha”, mas criar condições adequadas para que o tecido se repare.


Úmido não significa molhado


Esse é um ponto importante.


Manter uma ferida em ambiente úmido não significa deixá-la encharcada, mergulhada em água ou acumulando secreções como pus.


O objetivo é manter um grau adequado de hidratação da superfície da ferida, ao mesmo tempo em que o curativo controla o excesso de secreção e protege o local.


Excesso de umidade também pode ser prejudicial, causando maceração da pele ao redor da ferida.


O equilíbrio é o mais importante.


O curativo ajuda na cicatrização?


Em muitas feridas, sim.


Além de contribuir para manter uma umidade adequada, o curativo protege a região contra atrito, traumatismos, sujeira e contaminação externa.


Existem diferentes tipos de curativos, e sua escolha depende de fatores como profundidade da ferida, quantidade de secreção, localização, presença de tecido desvitalizado e possibilidade de infecção.


Por isso, não existe um único curativo ideal para todas as situações.


Não é uma pomada que faz a ferida cicatrizar e sim o próprio organismo


Outro conceito bastante difundido é que determinada pomada teria o poder de “cicatrizar”, “fechar” uma ferida ou até "puxar seu conteúdo".


Na realidade, quem realiza a cicatrização é o próprio organismo.


A reparação de uma ferida é um processo biológico complexo que envolve inflamação, formação de novos vasos sanguíneos, multiplicação e migração de células, produção de colágeno e reconstrução progressiva do tecido.


Pomadas, cremes e outros produtos tópicos podem fazer parte do cuidado local.


Dependendo do produto e da situação, podem ajudar a manter a umidade adequada, proteger a superfície, reduzir o ressecamento e a formação de crostas ou, quando especificamente indicadas, exercer outras funções terapêuticas.


Mas estes produtos não substituem e nem comandam o processo de cicatrização.


Para que uma ferida cicatrize adequadamente, é necessário que o organismo tenha condições para realizar esse reparo.


Circulação sanguínea, oxigenação dos tecidos, estado nutricional, controle de doenças como diabetes, controle de infecção quando presente e as próprias condições locais da ferida podem interferir nesse processo


Por isso, trocar repetidamente de pomada quando uma ferida não evolui como esperado pode não resolver o problema.


A pomada pode ajudar no cuidado da ferida. Quem cicatriza é o organismo.


Limpar a ferida é importante, mas limpeza não significa agressão


Outro erro frequente é acreditar que quanto mais forte for o produto aplicado sobre a ferida, melhor será a limpeza.


Não necessariamente.


A limpeza tem como objetivo remover resíduos, secreções e materiais que possam interferir na cicatrização sem causar novas lesões ao tecido que está tentando se reparar.


Água limpa ou soro fisiológico pode ser suficiente em diversas situações.


Antissépticos possuem ação contra microrganismos e podem ter indicações específicas.

Entretanto, isso não significa que devam ser aplicados repetidamente em qualquer ferida.


Algumas substâncias utilizadas como antissépticos também podem exercer efeitos sobre células humanas envolvidas na cicatrização, como fibroblastos e queratinócitos.


Por esse motivo, o uso excessivo ou indiscriminado de antissépticos não deve ser confundido com um cuidado melhor da ferida.


E álcool e água oxigenada?


O fato de uma substância arder, fazer espuma ou parecer realizar uma limpeza mais “forte” não significa que esteja favorecendo a cicatrização.


Produtos potencialmente irritantes utilizados repetidamente podem lesar o tecido em formação.


A ferida não precisa ser agredida para ficar limpa.


Na maioria das situações, o princípio é exatamente o contrário: limpar de maneira adequada e preservar ao máximo o tecido viável que está participando da cicatrização.


É melhor deixar a ferida coberta?


Para muitas feridas superficiais, manter o local protegido com um curativo adequado costuma ser preferível a simplesmente deixá-lo exposto até formar uma crosta seca.

Isso pode favorecer a reepitelização, diminuir novos traumatismos sobre a região e tornar as trocas de curativo menos dolorosas.


Mas existem muitos tipos diferentes de feridas.


Feridas profundas, infectadas, muito exsudativas, queimaduras extensas, úlceras, feridas cirúrgicas e lesões associadas a problemas vasculares ou diabetes podem necessitar de cuidados específicos.


Então qual é a regra?


Talvez a ideia mais importante seja abandonar três conceitos antigos:


Ferida não precisa “respirar”.


Formar uma crosta seca não é o objetivo do tratamento.


E não é a pomada que faz a ferida cicatrizar.


O objetivo dos cuidados locais é proporcionar condições adequadas para que o organismo realize seu próprio processo de reparação: uma ferida limpa, protegida e com umidade controlada.


Em outras palavras: para muitas feridas, proteger e manter uma umidade adequada favorece mais a cicatrização do que simplesmente deixá-las abertas para secar e formar “casquinha”. Pomadas e curativos fazem parte dos cuidados locais e podem contribuir para criar condições favoráveis, mas o processo biológico de cicatrização é realizado pelo próprio organismo.


Referências:


1)Junker JPE, Kamel RA, Caterson EJ, Eriksson E. Clinical Impact Upon Wound Healing and Inflammation in Moist, Wet, and Dry Environments. Advances in Wound Care. 2013;2(7):348-356. PMCID: PMC3842869. PMID: 24587972.

2)Atiyeh BS, Dibo SA, Hayek SN. Wound cleansing, topical antiseptics and wound healing. International Wound Journal. 2009;6(6):420-430. PMID: 20051094. PMCID: PMC7951490. DOI: 10.1111/j.1742-481X.2009.00639.x.

3)Kirman CN. Pressure Injuries (Pressure Ulcers) and Wound Care. Medscape. Atualizado em 2024.


Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.


Dr. Olivério Carvalho é médico dermatologista em São Paulo, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e especialista em Dermatologia pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação em câncer de pele, cirurgia dermatológica e criocirurgia.

CRM-SP 59.971 — RQE 108.382


bottom of page
```html ```