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Cremes clareadores vendidos pela internet podem conter mercúrio

Foto do escritor: Dr. Olivério Carvalho
Dr. Olivério Carvalho
26 de ago.
5 min de leitura

Alerta da FDA chama atenção para produtos irregulares


Cremes cosméticos vendidos pela internet ao lado de material de laboratório e símbolo químico do mercúrio, representando alerta sobre produtos irregulares.
Análises da FDA encontraram concentrações extremamente elevadas de mercúrio em alguns cremes clareadores vendidos pela internet, reforçando a importância de verificar procedência e regularização dos cosméticos.

Comprar cosméticos pela internet tornou-se parte da rotina de milhões de pessoas.


Cremes para manchas, produtos clareadores e fórmulas que prometem uniformizar rapidamente a cor da pele aparecem diariamente em marketplaces, redes sociais e sites internacionais.


Mas existe um problema que nem sempre pode ser identificado pela embalagem ou pela propaganda.


Alguns desses produtos irregulares podem conter substâncias que não estão declaradas no rótulo, inclusive mercúrio em concentrações potencialmente perigosas.


Em 2026, análises laboratoriais realizadas pela FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, encontraram quantidades extraordinariamente elevadas de mercúrio em diversos produtos clareadores vendidos pela internet.


Diversos produtos apresentaram mais de 10 mil ppm de mercúrio e, em um deles, a concentração chegou a 27.762 ppm.


A Convenção de Minamata sobre Mercúrio inicialmente utilizava o limite de 1 parte por milhão para cosméticos contendo mercúrio. Posteriormente, esse limite foi retirado, reforçando a eliminação de cosméticos com mercúrio adicionado.


Assim, encontrar concentrações superiores a 10 mil ou até 27 mil ppm não representa uma simples impureza: estamos diante de quantidades extraordinariamente elevadas de uma substância tóxica.


Por que alguém colocaria mercúrio em um creme clareador?


Alguns compostos de mercúrio conseguem interferir na produção de melanina, pigmento responsável pela cor da pele.

Por essa razão, historicamente foram utilizados de maneira inadequada em produtos destinados a clarear a pele ou reduzir manchas.

O problema é que o mercúrio é tóxico.

Quando produtos contendo mercúrio são aplicados repetidamente sobre a pele, parte da substância pode ser absorvida e chegar à circulação sanguínea.


Quais problemas o mercúrio pode causar?


A exposição repetida pode atingir diferentes órgãos.

Entre os problemas descritos estão:


  • lesões renais;

  • alterações neurológicas;

  • tremores;

  • formigamento ou dormência;

  • alterações de memória e cognição;

  • mudanças de humor;

  • cefaleia;

  • fadiga;

  • irritação e lesões da própria pele.


Crianças e gestantes merecem atenção especial porque determinados efeitos do mercúrio podem ser particularmente importantes durante o desenvolvimento.


E esses produtos estavam sendo vendidos onde?


Este talvez seja um dos pontos mais importantes do alerta.

Vários produtos analisados pela FDA haviam sido adquiridos pela internet, inclusive em grandes plataformas de comércio eletrônico.

Depois da identificação do problema, alguns anúncios foram removidos. Em outros casos, a FDA informa que sequer conseguiu localizar adequadamente o vendedor ou obter resposta do distribuidor.

Isso demonstra uma dificuldade crescente da fiscalização sanitária mundial.


Um produto estar disponível em um marketplace não significa que ele tenha sido adequadamente avaliado ou autorizado pelas autoridades sanitárias.


A aparência profissional de uma embalagem também não comprova sua segurança.


Mas isso aconteceu nos Estados Unidos.

O que tem a ver com o Brasil?


É importante fazer essa distinção corretamente.


Os resultados da FDA não permitem afirmar que esses mesmos produtos estejam sendo comercializados no Brasil nem que cremes clareadores vendidos regularmente no país contenham mercúrio.

Essa seria uma extrapolação indevida.


Entretanto, a preocupação é relevante também para consumidores brasileiros por três razões.


1. O comércio pela internet atravessa fronteiras


Hoje é possível encontrar produtos fabricados em diferentes países sendo oferecidos por sites, redes sociais, importadores independentes e marketplaces.

A própria Organização Mundial da Saúde alerta que produtos clareadores contendo mercúrio continuam sendo anunciados e comercializados pela internet mesmo em países onde existem restrições rígidas à sua utilização.


2. O Brasil também possui regras para controlar o mercúrio


O Brasil ratificou a Convenção de Minamata sobre Mercúrio em 2017, e o tratado foi promulgado no país pelo Decreto nº 9.470/2018.

Seu objetivo é proteger a saúde humana e o meio ambiente dos efeitos tóxicos do mercúrio, incluindo sua utilização em determinados produtos de consumo.

A Anvisa também mantém listas de substâncias proibidas e de uso restrito em cosméticos, atualizadas novamente em 2026.


3. Produtos cosméticos irregulares também são encontrados no mercado brasileiro


Em 2026, a Anvisa publicou diversas medidas de apreensão e proibição de cosméticos sem regularização sanitária.

Em março, por exemplo, a Agência encontrou até medicamentos dermatológicos comercializados irregularmente pela internet, incluindo produto vendido pela Shopee e unidade falsificada de outro medicamento.

Em agosto, novos cosméticos para pele e cabelos foram apreendidos por falta de regularização.


Esses episódios não demonstram contaminação por mercúrio no Brasil, mas mostram que produtos irregulares efetivamente chegam ao comércio eletrônico brasileiro.


Como saber se um cosmético está regularizado no Brasil?


A Anvisa disponibiliza uma consulta pública na qual é possível pesquisar produtos cosméticos utilizando informações como nome, marca, empresa, CNPJ ou número de processo.


A própria Agência recomenda utilizar apenas produtos regularizados.

Isso é especialmente importante quando o produto:


  • é importado;

  • é vendido apenas por redes sociais;

  • não informa claramente fabricante ou importador;

  • apresenta rótulo incompleto;

  • promete resultados muito rápidos;

  • não apresenta composição compreensível;

  • ou oferece um efeito intenso incompatível com aquilo que normalmente se espera de um simples cosmético.


Desconfie de promessas de clareamento muito rápido

Expressões como:


  • “pele mais branca em sete dias”;

  • “remove todas as manchas”;

  • “clareamento permanente”;

  • “resultado imediato”;

  • “fórmula secreta”;

  • “100% natural e sem riscos”;

devem ser encaradas com cautela.


Quanto mais extraordinário o efeito prometido, mais importante se torna saber qual substância está provocando aquele efeito.


Um creme que modifica intensamente a pigmentação da pele não deixa de possuir atividade biológica simplesmente porque está sendo chamado de “cosmético”.


Produto vendido em grande marketplace não é sinônimo de produto seguro


Este talvez seja o ensinamento mais prático do alerta da FDA.

O consumidor tende naturalmente a pensar que, se determinado produto aparece numa grande plataforma de vendas, alguém já verificou sua segurança.

Isso nem sempre é verdade.

Marketplaces podem reunir milhares de vendedores independentes, inclusive internacionais. A fiscalização pode identificar produtos irregulares e retirá-los posteriormente, mas isso não significa que todo item tenha sido previamente analisado em laboratório.

No caso divulgado pela FDA, alguns cremes somente foram removidos depois que análises laboratoriais demonstraram a presença de grandes quantidades de mercúrio.


Em resumo


A FDA encontrou em 2026 cremes clareadores vendidos pela internet contendo concentrações extremamente elevadas de mercúrio, em um caso chegando a 27.762 partes por milhão.

Isso não significa que cosméticos clareadores regularmente comercializados no Brasil apresentem o mesmo problema.


Mas a notícia traz um alerta que também é válido para o consumidor brasileiro:


comprar um cosmético pela internet não garante que sua composição, procedência ou segurança tenham sido adequadamente verificadas.


Produtos destinados ao tratamento de manchas precisam ser escolhidos de acordo com o diagnóstico e com as características da pele.

E quando um produto promete clareamento intenso ou muito rápido, especialmente se tiver procedência desconhecida, vale lembrar: o que produz um efeito muito forte na pele também pode produzir efeitos indesejados no organismo.


Fontes


U.S. Food and Drug Administration (FDA). FDA Warns Consumers of Skin Products Containing Mercury and/or Hydroquinone. Dados laboratoriais atualizados com produtos testados em 2026.

World Health Organization (WHO). Elimination of mercury-containing skin lightening products.

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Atualização das listas de substâncias para uso em cosméticos, 2026.

Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Convenção de Minamata sobre Mercúrio.


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